quinta-feira, 23 de junho de 2016

Projeto Educação em Movimento

“DIGA E EU ME ESQUECEREI, MOSTRE-ME E TALVEZ ME LEMBRE, ENVOLVE-ME E COMPREENDEREI.”

As pesquisas comprovam que pessoas expostas a estímulos auditivos (uma apresentação teórica), absorvem em média 25% do conteúdo abordado. Se for adicionado um estímulo visual ao auditivo, o percentual aumenta para 35%. Entretanto, se as pessoas estiverem envolvidas e transformadas em agentes do próprio aprendizado, o percentual de retenção sobe até para 80%, proporcionando assim, um maior retorno sobre o investimento do treinamento.
Assim promover a sensibilização dos mais diversos atores sociais para importância da conservação dos ambientes naturais torna-se mais eficaz quanto envolvemos as pessoas em atividades voltadas a preservação do meio ambiente, ou outras que só são possíveis em ambientes preservados.

A proposta do Projeto Educação em Movimento se firma nas ideias da  Escola peripatética, que  foi um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, o fundador. Fundada em c.336 a.C., quando Aristóteles abriu a primeira escola filosófica no Liceu em Atenas, durou até o século IV.

"Peripatético" (em grego, περιπατητικός), é a palavra grega para 'ambulante' ou 'itinerante'. Peripatéticos (ou 'os que passeiam') eram discípulos de Aristóteles, em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, caminhando enquanto lia e dava preleções, por sob os portais cobertos do Liceu, conhecidos como perípatoi, ou sob as árvores que o cercavam.

Não é uma ideia nova, mas sem dúvida um (re)inovação na forma de ensinar, pois convenhamos que nenhum recurso pedagógico e tecnológico é mais eficaz experiencia in loco.

Assim apresento-lhes...

domingo, 3 de abril de 2016

VISTORIANDO A BAIXADA DOS GOYTACAZES

Arthur Soffiati

No dia 28 de janeiro de 2016, acompanhei a Professora Doutora Adriana Filgueira e a turma de mestrado em Geografia em visita a alguns pontos da Baixada dos Goytacazes com o fim ilustrar, no campo, alguns pontos sujeitos a desastres. Concentramos nossas atenções em três pontos: Lagoa do Campelo, Três Vendas e Ururaí.
Introdução

Hildebrando de Araujo Góes analisou as quatro baixadas do Estado do Rio de Janeiro para fins de drenagem e "saneamento", como engenheiro da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, órgão criado em 1933 para erradicar doenças (GÓES, Hildebrando de Araujo. Saneamento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Ministério da Viação e Obras Públicas, 1934). Já se sabia que certas doenças não eram mais transmitidas por miasmas e sim por vírus, bactérias, protozoários e fungos. Acreditava-se que vetores dessas doenças proliferavam nas águas lentas que se acumulavam nas baixadas. Portanto, era necessário drenar essas águas para erradicar os focos de endemias e epidemias. Na verdade, havia uma intenção não declarada enfaticamente no processo de "saneamento": incorporar terras submersas à economia agropecuária principalmente, como também ampliar espaços para a urbanização. De um espaço caótico então existente tornava-se imperioso, em nome do progresso, dar a esse espaço aspecto geométrico com a retilinização de cursos d'água e drenagem de lagoas.

As quatro baixadas selecionadas por Góes foram: Sepetiba, Guanabara, Araruama e Goytacazes. Essas áreas foram consideradas problemáticas, pois as águas das chuvas caídas na zona serrana corriam para elas em demanda ao mar. Quanto à Baixada de Sepetiba, também estudada por Góes em rico relatório do mesmo nome, tem ela uma superfície de 1.500 km2 e é formada e drenada por rios de pequeno porte (GÓES, Hildebrando de Araujo. Baixada de Sepetiba. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942). A distância entre a zona serrana e o mar é considerável para a ocorrência de enxurradas ao longo da planície. Não assim com relação à Baixada da Guanabara, erroneamente nomeada de Baixada Fluminense. Góes inclui nela a Baixada da Tijuca. Com área estimada em 3.800 km2, a distância entre a Serra do Mar e a Baía de Guanabara não permite a existência de longos rios e de uma larga planície. Assim, chuvas torrenciais causam enxurradas. As águas alcançam logo o mar. No entanto, a urbanização rápida e desordenada vem retendo águas pluviais no continente e causando grandes transtornos à região metropolitana e à população de baixa renda, pressionada a construir suas casas no rumo das torrentes. No que concerne à Baixada de Araruama, com cerca de 4.000 km2, há que se destacar a existência de um grande cordão de lagoas paralelas à costa com saída para o mar, do qual se destaca a Lagoa de Araruama, entre a zona serrana e o oceano, que o transforma em principal receptáculo das chuvas abundantes. Mas, aqui também, a urbanização acelerada está dificultando o processo de drenagem.

Figura 1- Baixadas do Estado do Rio de Janeiro segundo Hildebrando de Araujo Góes (1934):
1- Sepetiba; 2- Guanabara; 3- Araruama; 4- Goytacazes
A singularidade da Baixada dos Goytacazes

A Baixada dos Goytacazes é singular em relação às outras. Primeiramente, ela foi construída pelo Rio Paraíba do Sul, o maior do Estado do Rio de Janeiro, e o mar. É de se esperar, portanto, que seja a mais extensa de todas. De fato, ela conta com uma área de 8.300 km2. A soma das superfícies das outras três baixadas supera a dos Goytacazes em apenas 1.000 km2. Formada a partir de 5.100 anos antes do presente, ela se compõem de uma grande área de origem aluvial e da maior restinga do Estado do Rio de Janeiro, senão de todo o Brasil. Associa-se a ela outra grande restinga, de origem mais antiga, aqui denominada de Restinga de Carapebus. Na retaguarda dessa planície, a zona serrana se constitui da Serra do Mar, que se interrompe abruptamente na margem direita do Rio Paraíba do Sul, e de uma formação cristalina antiga e baixa na sua margem esquerda (As duas grandes teorias sobre a formação da planície fluviomarinha do norte fluminense foram formuladas por LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o Brejo, 2a edição. Rio de Janeiro: Lidador, 1974; e MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José M. L. e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário Costeiro do Litoral Norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997. O autor acompanha a segunda).

A segunda característica da Baixada dos Goytacazes é a distância entre a zona serrana e o mar. Tomando-se o ponto em que o Paraíba do Sul deixa o cristalino, em Itereré, até seu ponto mais meridional, na foz do Rio Macaé, sua latitude se estende de 21o40'35"S a 22o22'7"S. Em termos de longitude, podemos tomar a extremidade setentrional da Restinga de Paraíba do Sul, a 41o4'28"O, até a foz do Rio Macaé, a 41o46'15"O. Assim, só podemos registrar enxurradas nas vertentes da Serra do Mar. A vertente interior é drenada pelos Rios Piabanha, Paquequer, Grande e do Colégio, principalmente, todos eles afluentes do Rio Paraíba do Sul. Pela vertente exterior, descem os Rios Macabu, Urubu, Imbé e Preto, confluindo todos eles, direta ou indiretamente para a Lagoa Feia, com exceção parcial do Rio Preto. Da zona serrana baixa, à margem esquerda do Paraíba do Sul, provêm os Rios Paraibuna de Minas, Pirapitinga, Pomba e Muriaé, com nascentes na Zona da Mata Mineira. Em resumo, a Baixada dos Goytacazes é, das quatro, a que mais recebe águas pluviais e a mais drenada. É, de todas, a mais extensa. A distância entre a zona serrana e o mar é notável.

A terceira característica dessa planície é a mínima declividade dela entre a margem direita do Paraíba do Sul e o mar, o que dificulta o escoamento das águas fluviais e pluviais. Transbordando em períodos de cheia pela margem direita, as águas do Paraíba do Sul derivavam lentamente e, no seu percurso, iam se acumulando em depressões e formando extensas e rasas lagoas, banhados e brejos. Essa baixada propiciava a constituição de um verdadeiro pantanal. Foi na margem direita do Rio Paraíba do Sul, problemática em termos de drenagem, que se instalaram a cidade de Campos e a fatia mais significativa da agroindústria sucroalcooleira.

A quarta singularidade da Baixada dos Goytacazes é que, a rigor, só existiam três defluentes originais e regulares das águas acumuladas no continente para o mar: os Rios Paraíba do Sul, Iguaçu e Guaxindiba, que enfrentavam e enfrentam permanentemente a grande energia oceânica, que tende a fechar qualquer desaguadouro. Enquanto os rios que drenam as Baixadas de Sepetiba e da Guanabara desembocam em baías protegidas e os que drenam a Baixada de Araruama são capturados pela lagoa de mesmo nome e por outras, os da Baixada de Goytacazes lutam contra o mar aberto e violento. Alberto Ribeiro Lamego considerou o mar - não o Paraíba do Sul e as lagoas - como o maior adversário da agropecuária e da vida urbana. Entusiasta do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, ele dizia não ser difícil abrir canais com o fim de transportar água do Rio Paraíba do Sul para uma lagoa e desta para outra e desta para outra mais. O problema era abrir canais que transportassem água do continente para o mar, pois a virulência deste certamente faria malograr a obra (LAMEGO, Alberto Ribeiro. Restingas na costa do Brasil. Boletim nº 96. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1940).

As águas fluviais e pluviais escoavam originalmente e ainda escoam parcialmente, na planície, por dois eixos: o do Rio Paraíba do Sul e do Rio Imbé-Lagoa de Cima-Rio Ururaí-Lagoa Feia-Rio Iguaçu. Os dois eixos chegavam ao mar. Entre eles havia ligações. Eram cursos d'água que fluíam do subsistema Paraíba do Sul para o subsistema Lagoa Feia (para sintetizar o segundo eixo). Eram eles o Rio Preto, Rio Cacumanga, Córrego Grande ou do Cula, Rio Cambaíba, Rio São Bento e Rio Doce ou Água Preta, conforme mostra o mapa a seguir:

 Figura 2- Baixada dos Goytacazes segundo Alberto Ribeiro Lamego (1954). Legenda: A- Rio Paraíba do Sul; B- Sistema Imbé-Ururaí-Iguaçu; 1- Rio Preto; 2- Rio Cacumanga; 3- Córrego Grande ou do Cula; 4- Rio Cambaíba; 5- Rio São Bento; 6- Rio Doce ou Água Preta. Pontos vistoriados: a- Canal de Cacimbas; b- Córrego da Cataia; c- Canal do Vigário; d- Lagoa do Campelo; e- Lagoa da Saudade; f- Canal Engenheiro Antonio Resende; g- Três Vendas; h- Rio Ururaí; i- Bairro de Ururaí
Pontos vistoriados

Com a finalidade de conhecer locais sujeitos a enchentes e estiagens, foram vistoriados, notadamente, a Lagoa do Campelo e a localidade de Três Vendas, no eixo Paraíba do Sul, e Ururaí, no eixo Lagoa Feia. Associado ao complexo Lagoa do Campelo, foram vistoriados também o Canal de Cacimbas e a Lagoa da Saudade

Canal de Cacimbas, Lagoa do Campelo e Lagoa da Saudade
Canal de Cacimbas

No setor norte da Restinga de Paraíba do Sul, as lagoas e brejos têm orientação paralela à linha de costa, prova que sua formação se deu com o processo de regressão marinha e progradação continental. Examinando um mapa com alguns detalhes pode-se perceber que a restinga vedou pequenos cursos d'água provenientes do tabuleiro, transformando-os em lagoas com formato dendrítico. Na restinga, a Lagoa do Campelo e o Brejo de Cacimbas, principalmente, são paralelos à costa.

No século XIX, o Brejo de Cacimbas foi aproveitado para a abertura de um canal de navegação que recebeu seu nome. Sua finalidade era ligar a Lagoa de Macabu, no tabuleiro, ao Rio Paraíba do Sul para escoar a produção do Sertão das Cacimbas, naquele tempo em território do Município de São João da Barra. O canal contava com eclusas e funcionou durante um bom tempo. Depois foi abandonado. Posteriormente, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) o incorporou à grande rede de drenagem, construída a partir de 1935, desviando sua extremidade setentrional para o Canal Engenheiro Antonio Resende.

Hoje, ele está abandonado e tomado por vegetação espontânea. Com as chuvas do fim de 2015 e princípio de 2016, houve acúmulo de água nele. Quando da vistoria efetuada em 28/01/2016, suas águas vertiam para o Paraíba do Sul, demonstrando que a margem esquerda deste rio é ligeiramente mais alta que o seu nível médio e que o nível do rio estava baixando.  As suas comportas existentes no entroncamento do canal com o rio estavam abertas. No local, fomos informados por um morador que estava ocorrendo desentendimentos entre dois proprietários rurais: um deles querendo as comportas aberta e outro desejando-as fechadas.

Figura 3- Canal de Cacimbas a montante da RJ-194. Foto do autor
Figura 3- Canal de Cacimbas a montante da RJ-194. Foto do autor


Lagoa do Campelo

Antes de sofrer processos antrópicos de transformação, a Lagoa do Campelo, totalmente embutida na parte norte da maior restinga do Estado do Rio de Janeiro, ligava-se ao Rio Paraíba do Sul apenas pelo chamado Córrego ou Valão da Cataia. A lagoa, situada em ponto ligeiramente mais alto que o nível baixo do rio, só recebia água deste quando das cheias. Nas estiagens, a água da lagoa fluía pelo Cataia em direção ao rio, num movimento de mão dupla. Entre o rio e a lagoa, o valão se alargava no rico Brejo da Cataia e da Lagoa do Arisco, excelente local para a reprodução de animais aquáticos, sobretudo peixes. Talvez, por essa razão, o Córrego da Cataia seja tão valorizado pelos pescadores.

No século XIX, tentou-se abrir um canal ligando o Rio Paraíba do Sul à Lagoa do Campelo para fins de navegação. Trata-se do Canal do Nogueira, que alcançou a Lagoa do Brejo Grande e foi abandonado por falta de recursos financeiros. Foi uma obra de vulto da qual ainda se encontram fragmentos. No século XX, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), sucessor da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, agora com atuação nacional, aproveitou parte do Canal do Nogueira para abrir o Canal do Vigário, de modo a aduzir água do Paraíba do Sul para a Lagoa do Campelo. O órgão pretendia diluir a salinidade da água da lagoa, estabilizar sua lâmina d'água e neutralizar o Córrego da Cataia. O excedente hídrico seria lançado ao mar por outro canal que começava na extremidade norte da lagoa, aproveitando a foz do Rio Guaxindiba para chegar ao mar. O nome dado a esse canal foi Engenheiro Antonio Resende.

Na junção do Córrego da Cataia, o DNOS instalou três comportas automáticas circulares. Quando das cheias, a água do Paraíba do Sul fechava as comportas automaticamente e não permitia a alimentação hídrica da lagoa. Com o abaixamento do nível do Paraíba do Sul durante as estiagens, a água da Lagoa do Campelo fluía para o rio e abria as comportas. Esse sistema gerou um conflito declarado entre ruralistas e pescadores no fim da década de 1970. Por mais de uma vez, as comportas foram arrancadas e a estrada foi fendida para que as águas do rio ganhassem o Córrego da Cataia. Finalmente, o Instituto Estadual do Ambiente (INEA), hoje responsável pelo manejo e manutenção do espólio do DNOS, instalou comportas manejáveis na junção do canal com o rio. Ainda é comum os ruralistas fecharem as comportas em tempos de cheia do rio a abrirem-na em tempos de estiagem. Em nossa vistoria, as comportas estavam abertas, deixando água do córrego fluir para o rio.

Figura 5- Casa de comportas do Córrego da Cataia. Foto do autor




Ainda hoje, há desentendimento entre ruralistas pescadores em torno dos Canais da Cataia e do Vigário. Como este começa num ponto do Paraíba do Sul mais alto que a Lagoa do Vigário, as águas do rio só fluem em direção à lagoa. Sucede que a urbanização ao longo do Canal do Vigário e o antigo vazadouro de lixo de Campos contribuem significativamente para a poluição hídrica, alimentando vegetação espontânea que dificulta a circulação de água entre o rio e a lagoa e contamina as águas da Lagoa do Campelo. Em nossa vistoria, as comportas do canal estavam abertas, o início do canal, pelo menos, está sem vegetação espontânea e as águas estavam fluindo para a lagoa.

Figura 6- Comportas do Canal do Vigário no Rio Paraíba do Sul. Foto do autor
Figura 7- Canal do Vigário a jusante da RJ 194. Foto do autor

Apesar das chuvas, a Lagoa do Campelo ainda não voltou às condições hídricas de 2012. Vestígios da vegetação que cresceu no seu leito durante a longa estiagem de 2014-15 ainda não foram cobertos pelo nível.

Figura 8- Aspecto da Lagoa do Campelo em Mundéus. Foto do autor

Na extremidade norte da lagoa, onde começa o Canal Engenheiro Antonio Resende, o nível da lagoa está mais baixo que o nível do canal, com a água de ambos apresentando coloração distinta. Talvez devido à barragem construída pelos assentados do Assentamento Zumbi dos Palmares.

Figura 9- Início do Canal Engenheiro Antonio Resende (esquerda), Lagoa do Campelo (direita)
e remanescente de vegetação de restinga (esquerda e alto). Foto do autor
Lagoa da Saudade

Como já explicado, as lagoas de tabuleiro oriundas do barramento natural de córregos pela restinga necessitam ainda de muita água para retornarem ao nível da enchente de 2012. A Lagoa da Saudade é a maior delas e apresenta umidade insuficiente. Outras lagoas do mesmo tipo estão com o leito exposto.

Figura 10- Lagoa da Saudade. Foto do autor
Três Vendas

Na margem esquerda do Rio Muriaé, último afluente do Rio Paraíba do Sul, ainda no Município de Campos dos Goytacazes, começou a se erguer, no fim da década de 1960, a localidade de Três Vendas. O pequeno núcleo habitacional cresceu em área sujeita a inundações do Rio Muriaé. Mesmo aparentemente protegido pela BR-356, que corta as várzeas do rio e por um dique junto à margem do Muriaé, a localidade ou fica inundada com a retenção de água pela estrada e não pode fluir em direção ao rio, como em 2008, ou é alagada pela água que transborda do rio, rompe o dique e a estrada, como aconteceu em 2012, talvez a enchente mais violenta a afetar o núcleo. Como tática para enfrentar os alagamentos, os moradores constroem casas de dois ou até mesmo de três andares. Quando das enchentes, eles se transferem para o alto e se livram das águas até que elas baixem.


Figura 11- Rompimento da BR-356 pela enchente de 2012. Ao fundo, do mais distante para o mais próximo:
Zona Serrana, localidade Outeiro, Lagoa da Onça e Três Vendas. Foto: domínio público
Figura 12- Três Vendas na enchente de 2012. Foto do autor
Depois do rompimento da rodovia em 2012, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT) reformou a fenda e colocou sob o leito três bueiros de 2X2 m. A Secretaria de Defesa Civil de Campos dos Goytacazes detectou formigueiros na estrada que podem minar o terreno. Em nossa vistoria, concluímos que a reforma feita pelo DNIT, substituindo um velho bueiro circular sem manutenção e entupido, por um sistema mais largo para a passagem de água tanto de um lado quanto de outro da estrada sem danos para ela. Mas não houve nenhuma preocupação do órgão em proteger Três Vendas de outra possível enchente, pois não há comportas para impedir o avanço das águas. Em 2012, elas ultrapassaram de muito o nível dos atuais bueiros.

Figura 13- Bueiros sob a BR-356, nas imediações de Três Vendas. Foto do autor

Rio Ururaí

Passamos do eixo Paraíba do Sul para o eixo Lagoa Feia, tomando a estrada da usina Santa Cruz até a Lagoa de Cima. O eixo Lagoa Feia recebe água do Paraíba do Sul pelos Canais de Itereré,  Cacumanga, São Bento e Quitingute e da Serra do Mar pelo Rio Imbé. A finalidade era verificar o impacto das chuvas sobre o eixo e o bairro de Ururaí, oficialmente situado em área de risco.

O Rio Ururaí foi vistoriado num ponto bem próximo de sua nascente, na Lagoa de Cima. Depois, no bairro de Ururaí, passando pelo Canal de Cacumanga. Ainda no século XIX, este curso d'água natural ligava o Rio Paraíba do Sul ao Rio Ururaí, alargando-se entre os dois rios na grande Lagoa de Cacumanga, como acontecia com vários outros cursos d'água que ligavam os dois eixos. As águas sempre verteram do Paraíba do Sul para o eixo Lagoa Feia. O DNOS canalizou o Cacumanga e extinguiu a lagoa de mesmo nome. Mais tarde, drenou a Lagoa do Saco por um canal afluente do Cacumanga. A urbanização e a falta de rede de esgoto com tratamento, juntamente com a falta adequada de coleta de lixo, transformou o canal num local de despejo de ambos. Passamos por ele e verificamos a intensa poluição que o assola.

Figura 14- Canal de Cacumanga na Tapera. Foto do autor
Figura 15- Rio Ururaí perto da nascente. Foto do autor
Como de costume, o eixo Lagoa Feia se ressente menos das estiagens que o eixo Paraíba do Sul por causa das águas provenientes da Serra do Mar.

Figura 16- Rio Ururaí a jusante da ponte da BR 101- Foto do autor
Considerações finais

1- Embora as chuvas das regiões da Zona da Mata Mineira e Serrana do Rio de Janeiro tenham encerrado uma longa estiagem de dois anos, a umidade ainda não voltou aos níveis de 2012 e 2013. A vazão e o nível do  Rio Paraíba do Sul têm oscilado bastante.
2- As Lagoas do Campelo e do tabuleiro central não se recuperaram devidamente da estiagem. A do Campelo ainda mostra claramente que sua lâmina e espelho d'água não voltaram a níveis desejáveis para o ambiente e para a pesca. Muitas lagoas de tabuleiro ainda estão sem água, com apenas o leito mais umedecido.
3- Nas cercanias de Três Vendas, as obras de reforma do DNIT na BR-356 visaram tão somente a segurança da estrada, não da localidade. Confia-se apenas nos diques da margem esquerda do Rio Muriaé e do Canal da Onça. Se eles se romperem com uma eventual enchente, não se pode garantir que a estrada resista ao impacto da águas, ainda mais se estiver fragilizada por formigueiros, como afirma a Secretaria de Defesa Civil de Campos dos Goytacazes. Se resistir, os três bueiros permitirão a passagem da água em direção a Três Vendas.
4- No eixo Lagoa Feia, a umidade se apresenta  mais intensa, como se pôde verificar na Lagoa de Cima e no Rio Ururaí.
5- Nenhum dos pontos sujeitos a inundações (Três Vendas e Ururaí) sofre ameaça iminente. A Lagoa do Campelo, sujeita a secas intensas, não se recuperou de todo.
6- O relativo conforto hídrico proporcionado pelas chuvas do verão 2015-16 deve ser aproveitado para a conclusão do Plano de Bacia do Paraíba do Sul e para execução de medidas que possam minorar enchentes e estiagens.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

LAGOA DO CAMPELO

Arthur Soffiati


Antes da formação da extremidade norte da restinga de Paraíba do Sul, vários pequenos cursos d'água desciam da unidade central da Formação Barreiras da Ecorregião de São Tomé e desembocavam no mar. O volume hídrico deveria ser então bem maior do que o atual, pois todo o tabuleiro e a zona serrana da margem esquerda do Paraíba do Sul eram recobertos por Mata Atlântica Estacional Semidecidual.

A zona serrana apresenta diferenças nas duas margens do Rio Paraíba do Sul: na margem direita, a umidade é maior porque as nuvens formadas sobre o oceano e sopradas para o continente são retidas pela Serra do Mar (Imbé) e se precipitam na forma de chuva. Na margem esquerda, as elevações são menores, permitindo que as nuvens as ultrapassem impulsionadas pelos ventos. A grande enchente de 2008 no eixo da Lagoa Feia deriva de enormes e atípicas precipitações pluviométricas na vertente atlântica da Serra do Mar. A calha dos pequenos rios que desembocam no Rio Imbé, a calha deste rio coletor, a caixa da Lagoa de Cima e da Lagoa Feia, a calha do Rio Ururaí e do Canal da Flecha não conseguiram absorver o volume de água precipitada. Essa enchente atípica talvez seja a única provocada por chuvas caídas no trecho final do Paraíba do Sul. As outras são causadas por águas provenientes das Zonas da Mata e Serrana e do primeiro estirão da Bacia do Paraíba. Não há, nos registros históricos, notícia de chuva com intensidade daquela que ocorreu em 2008 na margem esquerda do rio. Daí a diferença das formações vegetais nativas de ambas as margens: a maior umidade da margem direita propicia o desenvolvimento de mata ombrófila densa, enquanto que, na margem esquerda, a umidade mais reduzida leva a mata atlântica a se adaptar na forma de mata estacional semidecidual. Ainda há fragmentos da vegetação nativa original em Morro do Coco. Nos tabuleiros, registramos os fragmentos das matas de Angra (junto à Lagoa de Taquaruçu), do Bom Jesus (no entorno da Lagoa do Fogo), de Funil (na extremidade norte do Assentamento Zumbi dos Palmares), da antiga Mata do Carvão, hoje protegida pela Estação Ecológica de Guaxindiba (na bacia do Rio Guaxindiba), na extremidade norte da Lagoa do Campelo (mata de restinga) e na foz do Rio Paraíba do Sul (manguezal).



Figura 1- Unidades geológicas da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul no seu estirão final. Fragmentos de vegetação nativa: X- Mata Estacional Semidecidual; X- Mata de restinga; X- Manguezal. Base cartográfica:
 Alberto Ribeiro Lamego (1954)

Quando os pequenos cursos do tabuleiro central foram barrados pela restinga, suas águas se alastraram, dando origem a lagoas alongadas de forma dendrítica. Esses antigos córregos não faziam parte, então, da Bacia do Paraíba do Sul. Eles desembocavam no mar, e, em seus estuários, deveria haver manguezais. Esses pequenos cursos d'água teriam o porte do Rio da Onça, que desembocava no Rio Muriaé depois de formar a lagoa da Onça.
O bloqueio dos córregos nos tabuleiros pela restinga não foi total. Restou uma depressão entre as duas formações geológicas que os mapas antigos registram com o nome de Canal do Campelo. Com o avanço do continente pela deposição de areia por ação do mar e do Paraíba do Sul, novas áreas úmidas foram se formando, agora com orientação paralela à linha da costa, e não mais com orientação perpendicular à costa, como as lagoas de tabuleiros. As principais depressões na restinga são a Lagoa do Campelo (englobando, originalmente, a Lagoa do Arisco e o Brejo da Cataia), os Brejos de Cacimbas, dos Farias, dos Cocos e do Mangue Seco, as Lagoas do Comércio, do Meio, da Taboa e da Praia.

Quando das enchentes ordinárias, as águas das lagoas de tabuleiro subiam de nível e vertiam para o Canal e a Lagoa do Campelo. O excedente hídrico do Canal do Campelo tendia a verter para a Bacia do Guaxindiba. Como o canal era descontínuo, as águas corriam com baixa velocidade e tendiam a estacionar. As águas excedentes da Lagoa do Campelo também fluíam lentamente pelos Canais da Ponte e da Cataia e tendiam a ficarem represadas porque as cheias no sistema Campelo costumavam coincidir com as cheias do Paraíba do Sul. Um senhor idoso, de nome Isaac, residente em Guaxindiba, informou-me, no fim dos anos 1990, que as cheias permitiam a seu pai e a ele saírem em canoa do Rio Guaxindiba e atravessarem o Rio Paraíba do Sul até sua margem direita para fazer compras na antiga Casa Sincera. Pela sua informação, a vazão aumentava muito e ficava retida pela descontinuidade do Canal do Campelo e pela cheia do Paraíba do Sul nos Canais de Ponte Velha e da Cataia, que esse rio se alargava muito, só voltando ao seu nível médio nas estiagens.

Examinando a topografia e os vertedouros naturais do sistema Campelo, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento, com origens em 1933, notou que as águas de cheia tendiam a correr em direção ao Rio Guaxindiba pelo Canal do Campelo e pelo Brejo de Cacimbas, onde um canal de navegação já havia sido aberto no século XIX, ligando a Lagoa de Macabu, nos tabuleiros, ao Paraíba do Sul. Trata-se do Canal de Cacimbas. Tanto este canal, quanto os de Cacimbas e da Ponte apresentam uma peculiaridade: correm para o Rio Paraíba do Sul quando seu nível abaixa a partir de uma determinada cota e vertem em sentido contrário com a cheia do rio. Se as águas de cheia ocorrem simultaneamente no rio e nas lagoas de tabuleiros, a tendência é o estacionamento das águas ou a lentidão do fluxo rumo ao Rio Guaxindiba. Mas antes disso, as águas de cheia do Paraíba do Sul é que enchiam verdadeiramente as lagoas e brejos da restinga e dos tabuleiros, contrariando o sentido natural dos fluxos, do ponto mais alto para o ponto mais baixo.

Para colocar o sistema Campelo a serviço da agropecuária, o DNOS concebeu um Canal para aduzir águas do Paraíba do Sul no sistema, aproveitando parte do Canal do Nogueira, aberto entre o rio e a Lagoa de Brejo Grande para fins de navegação. Ele foi abandonado até o DNOS aproveitar o trecho da Lagoa da Olaria até a Lagoa de Brejo Grande, estendendo-o até a Lagoa do Campelo. Usando parte do canal natural do Campelo, o órgão ligou a extremidade norte da Lagoa do Campelo à foz do Rio Guaxindiba, no mar, pelo Canal Engenheiro Antônio Resende. Tentou neutralizar o Canal da Cataia, instalando três comportas automáticas na sua foz no Paraíba do Sul. Instalou também duas comportas desse tipo no Canal de Cacimbas, desviando a extremidade norte do Canal para o Engenheiro Antônio Resende. Quando as águas do rio subiam, a força delas fechavam as comportas. Quando o nível do rio ficava mais baixo que o nível dos dois canais, a força das águas abriam as comportas para que elas fluíssem em direção ao Paraíba do Sul.

A finalidade do sistema de canais e comportas do DNOS era estabilizar a lâmina d'água da Lagoa do Campelo e eliminar sua salinidade para a agropecuária. As águas do Paraíba do Sul entrariam pelo Canal do Vigário, quando o nível do rio alcançasse cerca de 5,20 m, chegando à Lagoa do Campelo em nível de 3,20 m e saindo pelo Canal Engenheiro Antônio Resende. No local, foi construído um vertedouro de concreto com 4,60 m, pelo sistema de cota da Inspetoria de Portos e Costas, com 1,75 m acima da cota geodésica, hoje usada pelo Instituto Estadual do Ambiente. O excedente também poderia sair pelo Canal da Cataia, mas nunca entrar.

A monografia de conclusão de curso de Geografia no IFF, de Leidiana Alonso Alves, com o título de "Análise geossistêmica da variação temporo-espacial dos espelhos d'água das lagoas do sistema Campelo entre os anos de 2006 e 2015" (Campos dos Goytacazes: IFF/Centro, 2016) trás informações que o extinto DNOS não tinha: a contribuição hídrica das lagoas de tabuleiros barradas pela porção norte da restinga do Paraíba do Sul na direção da Lagoa do Campelo. Esse barramento natural não cortou de toda a ligação dessas lagoas com a Lagoa do Campelo. As lagoas de tabuleiros ainda recebem água da zona serrana e a conduzem para a Lagoa do Campelo.


Figura 2- Orientação dos cursos d'água no Sistema Campelo. Base cartográfica adaptada de Leidiana Alves (2016).


Creio que devemos considerar apenas as Lagoas de Maria do Pilar, Taquaruçu, Olaria, do Fogo, Brejo Grande, São Gregório, Santa Maria, da Saudade, do Saco, do Funil, Grande, das Pedras, Salgada e do Macabu como contribuintes do Campelo. A do Cantagalo fluía e flui, quando cheia, para o Rio Paraíba do Sul. A do Vigário idem, originalmente. Mas o DNOS fechou o canal que a ligava ao rio e abriu outro, para ligá-la à Lagoa Maria do Pilar. Por ação antrópica, então, ela passou a integrar o sistema Campelo. Cabe notar também que muitas lagoas pequenas do sistema ou são braços das maiores ou foram capturadas por ele. Mas o princípio continua o mesmo: as lagoas de tabuleiros fluem para a Lagoa do Campelo e as águas dessa fluem para o Córrego da Cataia, em direção ao Paraíba do Sul, quando seu nível permite, ou para o Rio Guaxindiba pelo Canal Engenheiro Antonio Resende, quando o nível da lagoa supera o coroamento do vertedouro. Contudo, as cheias do sistema Campelo contam mais com as cheias do Paraíba do Sul do que com as cheias provenientes da zona serrana à margem esquerda do grande rio.


Figura 3- Sistema Campelo. Elaborado por Leidiana Alves (2016).


Para encerrar, cabe notar a complexidade do sistema Campelo. Originalmente, em tempo de estiagem, com o nível do Paraíba do Sul baixo, a Lagoa do Campelo atuava como um receptáculo de água das lagoas de tabuleiros e as escoava para o rio pelo Córrego da Cataia. Quando das cheias anuais, havia reversão hídrica: as águas do Paraíba do Sul ganhavam o Córrego da Cataia e alagavam o brejo de mesmo nome, a Lagoa do Campelo (que compreendia a Lagoa do Arisco) e alcançavam as lagoas de tabuleiros. Assim, o sistema Campelo atuava como afluente do grande rio nas estiagens, afluente esse que era alimentado pelo Paraíba do Sul nas cheias.

Com as obras do DNOS, o sistema Campelo tornou-me ainda mais complexo. Pelos Canais do Vigário e Engenheiro Antônio Rezende, o Paraíba do Sul passou também a defluir no mar no Rio Guaxindiba, depois de cruzar a Lagoa do Campelo. Podemos ainda especular que, se as duas conexões do sistema Campelo com o Paraíba do Sul - Canais do Vigário e Cataia - forem vedadas nas cheias ou nas estiagens, alcançando Lagoa do Campelo nível que ultrapasse o vertedouro na sua extremidade setentrional,  o sistema passa, realmente e não apenas virtualmente, a desaguar no mar pelo Canal Engenheiro Antônio Resende, que subtraiu a foz do Rio Guaxindiba finda a sua abertura pelo DNOS nos anos de 1970. Assim, o sistema Vigário se associa a duas bacias: Paraíba do Sul e Guaxindiba.

Por fim, poderíamos considerar o Córrego da Cataia e o Brejo de Cacimbas como os últimos afluentes do Paraíba do Sul. Embora o comportamento hídrico de ambos seja atípico, eles não deixam de afluir para o grande rio.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CURSO DE APICULTURA – PED (Parque Estadual do Desengano)


O objetivo destas oficinas visa auxiliar na capacitação técnica e informativa da comunidade para abelhas silvestres e manejadas, e atrelar estes saberes ao vínculo sustentável e produtivo.  As oficinas fazem parte do projeto Estratégias para desenvolvimento da cadeia produtiva com abelhas por meio da Capacitação e Assistência Técnica, desenvolvidos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro ,através do Instituto de Zootecnia ( Departamento de Produção Animal) e coordenado pela Professora Maria Cristina A. Lorenzon.

Temos como público alvo os apicultores e produtores rurais do entorno do Parque Estadual do Desengano, que contempla os municípios de Santa Maria Madalena, São Fidélis, Campos dos Goytacazes, São Sebastião do Alto, Trajano de Moraes e municípios circunvizinhos.

As oficinas são inteiramente gratuitas, sem cobrança de inscrições ou material didático, considerando o enorme potencial da atividade não apenas do ponto de vista econômico mas também ambiental, pois as abelhas desempenham um papel fundamental na polinização das plantas e a própria existência das florestas.

As inscrições podem ser feitas pelo nosso e-mail institucional : ped.inea@gmail.com ou através de nossos telefones em horário comercial - (22) 2561-1378 ou (22) 2561- 3072

Com essa atividade tentamos fazer uma ponte entre o saber científico, o conhecimento popular e o fomento a uma atividade que impacta positivamente nossa unidade de conservação, mostrando ser possível preservar o espaço natural  e gerar renda.

As oficinas propostas inicialmente são essas, com mínimo de dez ( 10 )  e máximo de vinte ( 20 ) alunos por turma. Algumas oficinas exigem que o aluno já seja apicultor.No ato da inscrição o aluno indica qual oficina deseja participar:

Oficinas


OFICINA 1 - FAÇA SEU CALENDÁRIO APÍCOLA - ( Necessário ser apicultor ) Forma de organização das atividades apícolas. Não se recomenda para iniciantes.

OFICINA 2 - COMO PRODUZIR CERA BRUTA - Os restos de favos como devem ser preparados para troca ou venda.

OFICINA 3 - COMO PRODUZIR PRÓPOLIS ( Necessário ser apicultor ) - Qual é a época, como usar o coletor e fazer a colheita.

 OFICINA 4 - BOAS PRÁTICAS NO MANEJO (Necessário ser apicultor) - Como trabalhar com higiene para garantir a saúde das abelhas.

OFICINA 5 - RECONHEÇA PELO TIPO FLORAL SEU POLINIZADOR - Para cada espécie floral há um determinado polinizador, saiba identificar.

OFICINA 6 - INICIANDO NA MELIPONICULTURA - Saberes mínimos sobre a criação de abelhas sem ferrão.

OFICINA 7 - APICULTURA e ARTEFATOS ECOLÓGICOS  - Como fazer e aplicar verniz, tinta ecológica e iscas para enxames.

 OFICINA 8 - ORGANIZAÇÃO DO AGRONEGÓCIO - REGISTROS - Registro de produtor, a revisão das colmeias Necessário ser apicultor.

OFICINA 9 – ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL (Necessário ser apicultor) - Como aplicar devidamente este manejo.

OFICINA 10 – Iniciando na Apicultura - O que é necessário para ser apicultor.

OFICINA 11 – Revisão de colmeias (  Necessário ser apicultor e dispor de apiário ) - Como revisar uma colmeia e o que observar.


FONTE
Recebido por email de:
Carlos Dário
Gestor do Parque Estadual do Desengano - PED
ped.inea@gmail.com

TERCEIRA ECOFISIONOMIA DA ECORREGIÃO DE SÃO TOMÉ NO HOLOCENO

Arthur Soffiati

No que reconheço como a terceira ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé nos últimos 10 mil anos, acaba havendo uma convergência entre as interpretações de Alberto Ribeiro Lamego (1945-54) e a dos geólogos Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997). A diferença entre ambas está no ponto inicial. Alberto Lamego concebe o Rio Paraíba do Sul avançando sobre um golfo raso e transportando sedimentos das partes altas para as partes baixas. Assim, o rio construiu um longo espigão dentro do mar, formando seu primeiro delta. Lamego classificou esse primeiro delta como do tipo Mississipi ou pé de ganso, por ter braços longos como os do delta do Mississipi ou dedos longos como os do pé de um ganso. Num segundo momento, esse longo espigão se ramificou em dois braços num ponto distante da costa atual e formou um delta do tipo Ródano, por se parecer com o delta desse rio. Enquanto isso, a água do Paraíba do Sul carreava sedimentos que formavam a planície fluviomarinha. Finalmente, o Paraíba do Sul consolidou seu ponto de lançamento de água no mar por um delta típico do rio, recebendo, por isso, a classificação de delta do tipo Paraíba do Sul, com os braços de Atafona e Gargaú. Gilberto Dias (1981) contestou o delta pé de ganso por entender que as forte correntes marinhas da região jamais permitiriam um delta com longos braços em mar aberto.

Já pelas pesquisas dos quatro geólogos, a terceira ecofisionomia constrói-se por processos de avanços (transgressão/retrogradação) e recuos (regressão e progradação) do mar e do continente. A partir de 10 mil anos antes do presente, o mar começou a avançar sobre o continente, alcançando sua culminância em 5.100 anos antes do presente. A partir de então, dois processos concomitantes constroem e estabilizam uma linha de costa muito próxima da atual. Lembremos, contudo, que as dinâmicas marinha e continental continuam atuando. Daí, processos erosivos em Marataízes, Barra do Itabapoana, Manguinhos, Guaxindiba, Atafona, Açu, Cabo de São Tomé e Barra do Furado. Deve-se levar em conta que as intervenções humanas concorrem para tais processos, como a redução de vazão de rios por ação antrópica, a construção de píeres na costa e a abertura de canais no continente.

Num ponto, as duas interpretações chegam à mesma conclusão: o resultado de ambos os processos é a formação de uma grande planície fluviomarinha deltaica pelo Rio Paraíba do Sul com incontáveis cursos d'água e lagoas, como mostram os mapas a seguir.      


Figura 1- Planície dos Goytacazes no século XVII segundo Alberto Ribeiro Lamego (1945)



Figura 2- Baixada dos Goytacazes em torno de 2.500 antes do presente, segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997)


Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, comparando as linhas de costa da ecofisionomia de 10 anos antes do presente com a de 2.500 anos antes do presente, concluem que houve retrogradação (recuo continental) nas áreas de tabuleiro e na restinga sul, com progradação (avanço continental) na restinga norte.

No interior da planície, a corrente do Paraíba do Sul e suas ramificações assumem a direção norte-sul e oeste-leste. Esta orientação talvez se deva à força do jato hídrico em direção ao sul e a força das correntes marinha de leste para oeste. Dois eixos hídricos se distinguem na planície. O primeiro é o do Paraíba do Sul, que se desloca de oeste para leste. O segundo é desenhado pelos Rios Imbé e Urubu-Lagoa de Cima-Rio Ururaí-Lagoa Feia-Rio Iguaçu. Os dois eixos se aproximam na raiz. O Rio Iguaçu, hoje não mais existente, corria paralelo ao Rio Paraíba do Sul. Os dois se ligavam pelo menos por seis cursos hídricos, com as água correndo lentamente do Paraíba do Sul para o Iguaçu, em razão da ligeira declividade do terreno na margem direita do Paraíba do Sul em direção ao Iguaçu. Embora sem os muitos detalhes assinalados pelo cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis, em 1785, José Vieira Leão, antecessor seu, registrou a estrutura hídrica da planície em 1767, como se pode depreender do mapa abaixo.

Figura 3- Carta da Planície dos Goytacazes segundo Vieira Leão (1767). Legenda: A- Eixo Paraíba do Sul; B- eixo Imbé-Lagoa de Cima-Ururaí (notar que o autor escreve Imbé)-Lagoa Feia-Iguaçu; 1- Córrego do Cula; 2- São Bento; 3- Rio Doce ou Água Preta

Figura 3- Carta da Planície dos Goytacazes segundo Vieira Leão (1767). Legenda: A- Eixo Paraíba do Sul; B- eixo Imbé-Lagoa de Cima-Ururaí (notar que o autor escreve Imbé)-Lagoa Feia-Iguaçu; 1- Córrego do Cula; 2- São Bento; 3- Rio Doce ou Água Preta


Os dois rios desembocavam no mar, em conformidade com o mapa abaixo.

Figura 4- Baixada dos Goytacazes segundo Alberto Ribeiro Lamego (1954). Legenda: A- Rio Paraíba do Sul; B- Sistema Imbé-Ururaí-Iguaçu; 1- Rio Preto; 2- Rio Cacumanga; 3- Córrego Grande ou do Cula; 4- Rio Cambaíba; 5- Rio São Bento; 6- Rio Doce ou Água Preta
Ao se formar, a planície capturou a parte serrana do Rio Paraíba do Sul, a Lagoa de Cima, o Rio Macabu e o Rio Muriaé. Vários pequenos cursos provenientes do tabuleiro foram tamponados pela restinga norte, transformando-se em lagoas. Em outras palavras, a planície do Rio Paraíba do Sul formou-se entre a zona serrana e os tabuleiros sul e centro, interceptando os cursos hídricos e bloqueando córregos.

No interior da planície, a Lagoa de Cima transbordou e passou a correr pelo Rio Ururaí. O Rio Preto, oriundo da Serra do Mar, desembocava no Paraíba do Sul quando das cheias. Nas estiagens, seu leito corria só para o Rio Ururaí. Este se alargava mais adiante na grande Lagoa Feia, que recebia o Rio Macabu. Por vário braços, a Lagoa Feia formava o Rio Iguaçu, que tinha uma foz alternativa para o mar, em tempos de cheia, na Lagoa do Lagamar. Os antigos ainda conhecem este escoadouro com o nome de Barra Velha. Depois de receber águas do Paraíba do Sul, com mais intensidade nas enchentes, pelos vertedouros do Cula, do Cambaíba, do São Bento e do Preto, o Rio Iguaçu formava o Banhado da Boa vista e se lançava no mar. Esses vertedouros formavam uma infinidade de lagoas que, no conjunto, constituíam um pantanal.

Considerando que a Ecorregião de São Tomé pode ser delimitada por um quadrilátero em que as duas linhas verticais tangenciam os Rios Itapemirim e Macaé, ao ser vedada a figura geométrica com as duas linhas horizontais, ela incluíra a zona serrana alta, a zona serrana baixa, a zona de colinas e maciços costeiros, três unidades de tabuleiro, quatro planícies aluviais e três restingas. As atuais regiões norte e noroeste do Estado do Rio de Janeiro, bem como a região sul do Espírito Santo estão inclusas no quadrilátero.



Figura 5- Ecorregião de São Tomé: concepção do autor sobre base cartográfica do Projeto RadamBrasil (1983). Legenda: 1- Zona Serrana Alta; 2- Zona Serrana Baixa; 3- Zona de Colinas e Maciços Costeiros; 4- Tabuleiros; 5- Planícies Aluviais; 6- Restingas.

Cinco rios de maiores proporções desembocam no mar no âmbito da ecorregião: Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé. Entre o primeiro e o terceiro, vários pequenos cursos d'água também defluiam no mar. A maioria deles perdeu a competência para continuar com a barra aberta, sobretudo por ações antrópicas.

Dentro do quadrilátero que delimita a ecorregião, encontram-se as seguintes formações vegetais nativas, do ponto mais alto até a linha de costa: 1- campos de altitude ou refúgios vegetacionais na Pedra do Desengano e no Pico do Frade; 2- Floresta ombrófila densa atlântica, na Serra do Mar e na zona de colinas e maciços costeiros; 3- Floresta Estacional Semidecidual Atlântica, na zona cristalina baixa, à margem esquerda do Rio Paraíba do Sul e nos tabuleiros; 4- campos nativos, formações pioneiras fluviais e mata higrófila de várzea nas planícies alagáveis e alagadas; 5- vegetação de restinga ou formações pioneiras de influência marinha e 6- manguezais, nos estuários abertos, semiabertos e fechados.

A fauna nativa também era bastante diversificada, incluindo animais de grande porte, como antas, onças, tamanduás bandeira e veados.

À medida que o continente foi avançando com o recuo do mar, povos nativos foram se instalando nas margens de rios e lagoas para a obtenção fácil de alimento. Os grupos indígenas do norte e noroeste fluminense e do sul do Espírito Santo faziam parte do tronco linguístico macro-jê, que se estendia pela Zona da Mata de Minas Gerais. Como praticavam uma economia de subsistência, os ecossistemas e os recursos naturais não sofriam danos profundos.

Quando Pero de Gois fundou a Vila da Rainha (1539), na margem direita do Rio Itabapoana, no âmbito da Capitania de São Tomé, e quando os Sete Capitães iniciaram uma colonização contínua em moldes europeus da ecorregião, a partir de 1632, a economia de subsistência dos povos nativos chocou-se com a economia de mercado da Europa. A ecorregião começou a ser incorporada ao processo de globalização e uma nova ecofisionomia começou a ser construída, agora não mais por forças da natureza, mas por ação humana e a poder de profundas transformações destruidoras de ecossistemas. Esta quarta ecofisionomia será examinada no próximo artigo, o último de uma série de quatro.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

FIM IRRESPONSÁVEL DO SEGURO DEFESO

Arthur Soffiati
Antes dos europeus chegarem à América, na transição dos séculos 15 e 16, os povos nativos praticavam uma economia de subsistência, colhendo, pescando, caçando e plantando. Só os povos andinos e da América Central conheciam rudimentos de comércio, mas não uma economia de mercado como a europeia.
Nos primórdios da colonização, tanto os nativos, que já estavam sendo exterminados pelos europeus, e os pobres da nova sociedade continuaram praticando uma economia de subsistência. Os brancos europeus que não enriqueceram e os negros africanos que vieram como escravos para a América aprenderam com os nativos o modo de vida que os sustentava. Miscigenaram-se com eles e geraram mestiços. A subsistência durou muito tempo. Atravessou o período colonial e chegou à República.
Pouco a pouco, essa economia começou a ser capturada pela franja de uma economia de mercado. As comunidades humanas foram se desagregando e dando origem ao individualismo. Essa pessoas antes tradicionais passaram a trabalhar para atender a economia mercantil, que nada respeita.  Trabalhadores antes comunitários passaram a ser trabalhadores independentes que vislumbravam a perspectiva de ganhar mais dinheiro explorando a natureza. 
Quando em regime comunitário, os trabalhadores sabiam respeitar os ciclos da natureza como os índios. Eles sabiam que seu alimento ou o seu ganha-pão podia acabar se os ciclos não fossem respeitados. Trabalhando para atender ao mercado, eles começaram a praticar a sobre-extração. Assim, as espécies vegetais e animais extraídas entraram num processo de extinção. Foram cientistas que alertaram para este risco.
Os governos dos três níveis em todo o Brasil instituíram períodos defesos em que as espécies não poderiam ser extraídas ou capturadas para que pudesse haver sua reprodução. Funciona assim: durante a reprodução de animais capturados para fins de venda, os governos pagam um salário aos catadores e pescadores para que eles se eximam de exercer sua atividade nesse período. No meu entender, o mais correto seria inseri-los em outra atividade socialmente necessária e não predatória, mas nem sempre essa atividade está disponível.
Temo estar pensando perigosamente ao acreditar que as compensações ambientais e sociais são perfumaria em momentos de crise da economia capitalista. Não que elas sejam vistas com ameaça de levante popular. Os empresários não se importam de onde vem o dinheiro desde que ele venha. Acontece que, quando as contas de um governo se desequilibram, os ajustes começam pelos cortes de despesas com programas ambientais e sociais. Programas de transferência de renda, de construção de casas populares, subsídios a passagens de transporte coletivo e programas educacionais correm o risco de ser cortados. Os movimentos de 2013 foram esquecidos e começam a retornar.
O seguro defeso é uma dessas perfumarias.  Os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente suspenderam o seguro defeso por portaria conjunta, alegando necessidade de recadastramento de pescadores. Tal seguro foi novamente posto em vigor pelo Decreto Legislativo 293/2015. O poder legislativo tem um compromisso demagógico com o eleitor. O Executivo federal ofereceu então ao Supremo Tribunal Federal uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN), que recebeu o número 5447. 
O ministro que estava de plantão era Ricardo Lewandowski, também presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele deferiu medida cautelar a favor da ação. Como justificativa esfarrapada, Lewandowski tranquilizou os pescadores explicando que eles estarão livres para exercer normalmente suas atividades. O seguro defeso tem justamente esta finalidade: impedir a atividade de pesca em época de reprodução de peixes e de outras espécies aquáticas. Lembrou ainda que a portaria interministerial pretende promover o recadastramento dos pescadores artesanais com o objetivo de detectar fraudes no recebimento do benefício. Não considero mais o pobre como herói. Sei muito bem que a desestruturação das comunidade tradicionais criou indivíduos que se comportam como os patrões. Além de fraudes no seguro, o período de defeso não era respeitado por todos.
De fato, um recadastramento se faz necessário. Há muito espertalhão se aproveitando do seguro sem o merecer. Mas este recadastramento deveria ser feito com a vigência do defeso e do seguro correspondente. Agora, não se tem um nem outro e a fauna aquática pode ser predada livremente. O governo começa a dar adeus aos bons sentimentos.  E o mais grave é que o governo federal conseguiu pareceres de especialistas para refutar o defeso. Esperemos que o STF derrube a liminar do Ministro Lewandowski, o que é difícil, pois todos os ministros foram indicados pela presidente e não se importam com a natureza. Basta dizer que a imprensa deu uma simples nota sobre o assunto. Mesmo assim, poucos órgãos.   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

OS BIOMAS BRASILEIROS

Arthur Soffiati

Bioma é um conceito usado em ecologia para designar um conjunto de ecossistemas correlacionados entre si. No recorte do território brasileiro, foram identificados sete biomas pela WWF: a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal Mato-grossense, os Campos Sulinos, a Caatinga, a Mata Atlântica e a Zona Costeira. O Ministério do Meio Ambiente embute a Zona Costeira na Mata Atlântica. É preciso considerar que, na frente da Amazônia, também existe Zona Costeira. Exemplifiquemos com a Amazônia, por exemplo. No bioma, existem os ecossistemas fluviais e lacustres; as matas permanentemente inundadas, em que a base das árvores está sempre sob as águas; as matas inundáveis, ora alagadas, ora secas; as matas de terra firme; os campos limpos e sujos e, na costa, as restingas e os manguezais. Tudo forma o Bioma Amazônico, no qual predominam formações geológicas de planície, enormes reservas de água doce, clima equatorial e extensas massas florestais.

Figura 1- Aspecto do Bioma Amazônico

Já o Cerrado conta com solos antigos e bastante trabalhados por processos naturais, déficit hídrico, ecossistemas florestais nativos de médio porte, árvores tortuosas e de casca grossa para a conservação da umidade e fauna pujante, sobretudo alada. Embora predomine a vegetação arbustivo-arbórea, existem as veredas, onde a água é mais abundante, chegando a aflorar, e onde reina a palmeira buriti.

Figura 2- Aspecto do Bioma Cerrado
O Pantanal é uma planície alagada e alagável pela bacia do Rio Paraguai. A diversidade ambiental é fantástica em termos de ictiofauna, herpetofauna, avifauna e mastofauna. Há ainda rios de água cristalina e de beleza invulgar.

Figura 3- Aspecto do Bioma Pantanal
Os Campos Sulinos são mais conhecidos como Pampas, espraiando-se pelo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Trata-se de uma imensa planície com arroios e originalmente uma vegetação herbácea onde pastavam emas e outros animais.

Figura 4- Aspecto do Bioma Campos Sulinos
A Caatinga, por sua formação geológica, seu relevo, seus solos, seu déficit hídrico, apresenta uma vegetação primeva entre savana e estepe adaptada a secas prolongadas e ao aproveitamento máximo da água. Paira o mito de que este mato (caa) branco (tinga) seja pobre em biodiversidade. No entanto, ela era bem elevada no período pré-cabralino.

Figura 5- Aspecto do Bioma Caatinga
A Mata Atlântica que, cada vez mais, é chamada de Domínio Atlântico, trata-se de um bioma com florestas úmidas geralmente acompanhando a Serra do Mar, florestas estacionais nas partes baixas e com menor umidade, florestas mistas e campos de altitude.

Figura 6- Aspecto do Bioma Mata Atlântica. Foto de Luiz Cláudio Marigo
Por fim, a Zona Costeira envolve ecossistemas diversos: restingas, em toda a costa brasileira, manguezais, marismas e praias. A vegetação herbácea, arbustiva e arbórea das restingas medra em solo arenoso. Vez que outra, aparecem os costões rochosos, com sua vegetação rupícola. Os manguezais são riquíssimos ecossistemas estuarinos com vegetação exclusiva e adaptável a elevados teores de salinidade. As marismas ocorrem principalmente no Rio Grande do Sul, embora possam aparecer em outros pontos da costa brasileira. Nelas, a salinidade da água limita o desenvolvimento de plantas intolerantes ao sal e estimula as plantas halófilas.

Figura 7.1- Restinga do Açu em foto de Dina Lerner em 1992

Figura 7.2 - Manguezais do Pará. Foto do autor.
Figura 7.3- Marisma. Foto de Felipe Rodriguez
Figura 7.4 - Costão rochoso

Figura 7.5- Praia. Foto de Sávio Freire Bruno
Os principais problemas que afetam o Bioma Amazônico são o desmatamento, as queimadas, as obras de engenharia (como as represas), o garimpo (que vem contaminando os rios com mercúrio), a agropecuária, a caça e o interesse crescente das empresas farmacêuticas pelo valor econômico de sua megadiversidade. Estima-se que, de 1500 aos dias de hoje, os ecossistemas florestais amazônicos tenham sofrido um decréscimo de, pelo menos, 15%.
Já a situação do Cerrado inspira mais cuidados. A partir da segunda metade do século 20, o bioma perdeu 50% de sua vegetação nativa na abertura de novas fronteiras agropecuárias. Dentre as muitas atividades rurais, as mais incrementadas são a soja e o gado para exportação. Há também um considerável processo de urbanização depois da transferência da capital do país para Brasília, em 1960. Hidrelétricas, dutos e estradas completam o quadro preocupante do Cerrado.
Era inimaginável que o Pantanal, com tanta água, pudesse ser vítima de grandes agressões ambientais. Mas está sendo. A supressão da vegetação nativa aumenta para dar lugar a pastos, muitos deles extensivos. Os teores de poluição já começam a assustar os especialistas. A pesca e a caça já ultrapassam os limites da sustentabilidade dos ecossistemas. Há ameaças à biodiversidade. Já os Campos Sulinos passaram por mudança tão radical com o estilo de vida europeu que pouco restou de sua composição florística original. Os arroios estão poluídos e a fauna nativa foi expulsa pelo gado.
A Caatinga sofreu muitas agressões antrópicas. Sua tendência à aridez começou a ser intensificada já em fins do século 16, quando o gado do litoral começou a se deslocar para interior a fim de não competir com a cana e com o algodão plantados no Domínio Atlântico e na Zona Costeira. As imensas fazendas de gado subiram o Rio São Francisco e desceram o rio Parnaíba, principalmente. Progressivamente, as secas foram se tornando mais intensas e destacaram o Nordeste no cenário nacional. Luiz Gonzaga as imortalizou em suas tristes canções.
Um dos mais atingidos biomas foi o Domínio Atlântico. Com cerca de um milhão de quilômetros quadrados em 1500, tem sua superfície atual reduzida a 7% da original. As principais cidades brasileiras cresceram em seu âmbito. Hoje, habitam nele mais de 80 milhões de pessoas. Os custos ambientais do extrativismo vegetal, da agropecuária, da industrialização e da urbanização foram altos. Majestosas florestas transformaram-se em lenha ou em madeira nobre. Nascentes secaram, rios se tornaram torcidos, assoreados e poluídos. As famosas biodiversidade e beleza da Mata Atlântica, tão caras a Tom Jobim, desaparecem rapidamente, transformando o Domínio Atlântico num dos mais ameaçados do planeta.
A Zona Costeira, a primeira parte do território do futuro Brasil a sentir o peso do pé europeu. Área de baixada, regada por rios que descem das montanhas, ela também sofreu destino idêntico ao do Domínio Atlântico: extrativismo mineral, vegetal e animal, implantação indiscriminada da agropecuária, urbanização e industrialização. Praticamente todos os seus rios e lagoas estão poluídos assoreados e eutrofizado. As praias sofreram uma ocupação desordenada que as descaracterizou. Os manguezais estiolam.
Quinhentos anos de colonização européia destruíram os biomas brasileiros incomensuravelmente mais do que o fizeram os povos nativos em 15 ou 20 mil anos de ocupação e uso de uma natureza luxuriante. Voltar às origens não é mais possível, mas é viável reverter parcialmente o processo de destruição, restaurando ecossistemas e biomas para estabelecer um modus vivendi equilibrado entre a sociedade brasileira e seu meio ambiente.
O conceito mais usual de bioma diz que se trata de um conjunto de vegetação nativa que alcançou situação clímax, ou seja, um grau de maturidade avançado. Neste sentido, o conceito não se aplicaria aos ambientes marinhos e insulares, nem mesmo, na verdade, ao bioma costeiro, com suas formações vegetais pioneiras. 
No entanto, outro conceito, mais geral, entende um bioma como um conjunto de ecossistemas interligados por razões pedológicas, climáticas e latitudinais. Por este prisma, podemos acrescentar mais dois biomas aos sete reconhecidos pela WWF no Brasil: o oceânico e o insular oceânico.
O primeiro é formado pelos vários ecossistemas marinhos afastados da costa. No Brasil, estes ecossistemas se caracterizam pela temperatura amena e pelas correntes oceânicas. O bioma oceânico brasileiro localiza-se no Oceano Atlântico a abriga muitas espécies de clima tropical que nele vivem o tempo todo, ou nele vêm se acasalar ou ainda procriar e passar parte a sua vida infantil e juvenil até poderem retornar aos seus ambientes de origem. É o que ocorre com algumas espécies de baleias e peixes. O biólogo Fábio Scarano propôs que a Plataforma Continental seja considerado bioma.

Figura 8- Abrolhos, no Bioma Atlântico
Já o bioma insular oceânico é constituído pelas poucas ilhas oceânicas em domínio marinho brasileiro. As que mais se destacam são o Rochedo de São Pedro e São Paulo, o arquipélago de Fernando de Noronha o Atol das Rocas e as ilhas de Trindade de Martim Vaz. O isolamento delas permite, por um lado, o desenvolvimento de espécies distintas das continentais. Por outro, sua fragilidade é muito grande, pois apenas uma espécie introduzida nelas pode causar grande desequilíbrio ecológico, como ocorreu com a introdução de cabras na Ilha de Trindade. 

Figura 9- Ilha de Trindade, no Bioma Insular Oceânico

       

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A NOVA ÉTICA AMBIENTAL

Arthur Soffiati

Quando os portugueses e outros europeus chegaram às terras que futuramente seriam o suporte físico do Brasil, havia muitas florestas e muita água nos rios e lagoas, além de fartura em tudo que ainda hoje chamamos de recursos naturais.  Quinhentos anos depois, as florestas estão devastadas e os rios sem suas matas ciliares, poluídos e esgotados. A crise hídrica que começou em 2014 e ainda continua mostrou que a síndrome da abundância, que sustentou por muito tempo a inesgotabilidade da natureza, não pode mais continuar.

Durante muito tempo, a ética do brasileiro em relação à natureza foi de predação. Esta atitude precisa mudar agora, se quisermos qualidade de vida no futuro. Em vez do esbanjamento, precisamos aprender a economizar em todos os níveis e setores. A agropecuária, a indústria e as cidades são os setores que mais poluem e, ao mesmo tempo, os que mais consomem. Entre a captação e o consumo, a perda de água chega a 50%, em alguns casos. A grande transposição que se faz do Rio Paraíba do Sul para o Rio Guandu visa mais a diluir a poluição para melhorar a captação.

Em toda a bacia, o desmatamento ultrapassa os limites mínimos. Sem floresta, a água escasseia. A nova ética ambiental, então, requer atenção com a natureza. O níveis de gases do efeito-estufa na atmosfera vêm elevando as temperaturas desde 1976. O desmatamento da Amazônia diminui o aporte de água para o centro-oeste e o sudeste e o desmatamento das bacias reduz a vazão dos rios.

Cabe agora diminuir a emissão de gases, restaurar e preservar a Amazônia, reflorestar, despoluir as bacias hídricas e economizar em todos os níveis. A nova ética ambiental deve ser abraçada por todos, caso desejemos um futuro mais confortável que o atual presente.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

SEGUNDA ECOFISIONOMIA DA ECORREGIÃO DE SÃO TOMÉ NO HOLOCENO

Arthur Soffiati

Na interpretação de Alberto Ribeiro Lamego, o segundo momento da formação da Planície do Paraíba do Sul, dentro da Ecorregião de São Tomé, durante o Holoceno, corresponde ao avanço de uma língua continental nas águas rasas marinhas. Este teria sido o início da formação do delta do Paraíba do Sul, que, na sua primeira conformação, criou dois golfos: o da Lagoa Feia e o de Campos. Esta língua foi formada em mar aberto pelo rio, ramificando-se em vários paleocanais. Lamego classificou este primeiro delta como do tipo pé de ganso ou Mississipi, visto que este rio desemboca no Golfo de México por uma rede alongada de canais, semelhante aos dedos dos pés de uma ave.

Como as correntes marinhas já eram fortes, o Rio Paraíba do Sul criou uma laguna na foz junto ao mar como proteção. No mapa abaixo, a costa atual está assinalada por um linha tracejada, interrompida no ponto em que a foz do rio irá relativamente se fixar. Pela datação do autor, este primeiro delta teria se formado no início do Holoceno, hoje datado em cerca de 12 mil anos antes do presente  (LAMEGO, Alberto Ribeiro. O homem e o brejo, 1ª ed. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia, 1945; Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº. 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955).

Embora a interpretação de Lamego tenha sido reformulada, se continuasse válida, a zona serrana não teria sofrido alterações, e as formações vegetais nativas nessa zona seriam potencialmente as mesmas de hoje: os refúgios vegetacionais ou campos de altitude no Pico do Frade e na Pedra do Desengano, a floresta ombrófila densa atlântica na zona serrana, à margem direita do Paraíba do Sul, e a floresta estacional semidecidual atlântica na zona serrana, à margem esquerda do Paraíba do Sul. Lamego entendia que o tabuleiro teria se formado anteriormente ao primeiro delta, de mesma forma que ele. Assim, ele também devia ser revestido por matas estacionais semideciduais. Ao longo da língua continental formada pelo Paraíba do Sul dentro do mar, a umidade era muito grande, inibindo o desenvolvimento de florestas. Só a vegetação de brejo podia prosperar ao longo do primeiro delta. As áreas de restinga ainda não estavam formadas. Talvez medrassem manguezais neste primeiro delta, pois o encontro da água doce com a água salgada já formava um grande estuário na laguna original. Se povos nativos já habitavam a região, eles estariam nas partes continentais consolidadas, assim como a fauna.

Acontece que o geólogo Gilberto Dias contestou a interpretação de Lamego, observando que um delta do tipo pé de ganso não poderia se formar numa costa de alta energia oceânica (DIAS, Gilberto T. M. O complexo deltaico do rio Paraíba do Sul. IV Simpósio do Quaternário no Brasil (CTCQ/SBG), publ. esp. nº 2. Rio de Janeiro, 1981).


Figura 1- Primeira fase da formação do delta do Paraíba do Sul segundo Lamego.
A segunda interpretação, proposta por Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, parte da premissa de que, em lugar de mar, havia uma porção continental com linha de costa mais avançada no oceano que atualmente. Com a elevação do nível do mar, no início do Holoceno, ocorreu o fenômeno de transgressão marinha, vale dizer, o mar avançou sobre um grande tabuleiro entre os Rios Macaé e Itapemirim, alcançando as bordas da zona serrana. A foz dos rios no mar foi empurrada para o interior. A invasão marinha afogou a Lagoa de Cima, transformando o Morro do Itaoca numa ilha. (MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José M. L.; e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997).

O ponto mais baixo no tabuleiro era a vale do Paraíba do Sul, que permitiu à transgressão marinha alcançar a zona serrana (cristalino) e erodir todo o entorno, separando o grande tabuleiro em duas seções: norte e sul. Nos trechos mais altos e tabuleiro, o mar avançou o quanto pôde, deixando atrás de si áreas erodidas, como as paleopraias e a Ilha das Andorinhas, entre os Rios Guaxindiba e Itapemirim. Onde o tabuleiro era mais elevado que a transgressão marinha, formaram-se falésias, extensas paredes costeiras. A Restinga de Carapebus, com cerca de 123.000 anos, perdeu para o mar a parte mais baixa, mas conservou planos acima da transgressão marinha. Parece que o mesmo aconteceu com a Restinga de Marobá. A Restinga de Paraíba do Sul ainda não existia, como se pode verificar no mapa a seguir.

Assim, por esta interpretação, vigente nos dias de hoje, a segunda ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé caracterizou-se por grande invasão do continente pelo mar na sua porção central. O máximo transgressivo foi alcançado em 5.100 anos antes do presente, no Holoceno Médio.    


Figura 2. Segunda ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé
segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor.
Com a invasão do mar nos vales dos rios, os manguezais deslocaram-se para o interior, no ponto em que água doce e água salgada confinavam. A vegetação de restinga foi eliminada nos pontos engolidos pelo avanço do mar e poupada nas partes que se mantiveram emersas. Houve uma grande perda da floresta estacional semidecidual nas partes do tabuleiro invadidas pelo mar. Ela sobreviveu nas partes emersas. A floresta ombrófila densa atlântica não foi atingida, tampouco os campos de altitude. O estudo da vegetação que morreu por submersão é feito atualmente pela palinologia (análise de pólen), sobretudo por Cynthia Fernandes Pinto da Luz (Os registros palinológicos como sensores das dinâmicas da vegetação do Holoceno da região norte do Estado do Rio de Janeiro (Brasil). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, dezembro de 2003 (tese de doutorado); desta autora com Ortrud Monika Barth (Palinomorfos indicadores de tipos de vegetação em sedimentos holocênicos da Lagoa de Cima, norte do Estado do Rio de Janeiro, Brasil – Dicotyledoneae. Leandra 15. Rio de Janeiro, 2000); de ambas com Louis Martin (Evolução das florestas tropical estacional semidecidual e ombrófila densa durante o Holoceno médio na região norte do Rio de Janeiro, baseada em palinologia. Geociências, IV (6), dezembro de 1999); e de ambas novamente com Cleverson Guizan Silva e Ina de Souza Nogueira (Dinâmica espacial na deposição de pólen, esporos e algas nos sedimentos da superfície de fundo da Lagoa de Cima, município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil Anais do II Congresso sobre Palinologia e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa, IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário, II Congresso do Quaternário dos Países de Línguas Ibéricas, nº 52, 2003).

A fauna já devia ser formada por animais típicos do Holoceno americano, mais adaptados a clima quente. Se a parte continental no fim do Holoceno já era habitada por povos nativos, os que ocupavam as partes baixas tiveram que se deslocar para as partes altas.