quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O BICENTENÁRIO DA EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DE MAXIMILIANO DE WIED-NEUWIED - I

Segue o primeiro de uma série de três artigos do Professor Arthur Soffiati sobre a expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied de 1815 a 1817, que publicaremos com imenso e orgulho.
Aproveitem!

Roger Coutinho 

*********************************************************************************

Arthur Soffiati

Há exatos 200 anos, em 1815, o príncipe naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied começou sua expedição científica entre o Rio de Janeiro e Salvador. Seu roteiro acompanhava a costa do Brasil, mas fazia incursões ao interior. Ele foi acompanhado por Georg Wilhelm Freyreiss e Friedrich Sellow, também naturalistas experientes e seus patrícios.

Maximiliano nasceu em 23 de setembro de 1782. Seu nome completo era Maximilian Alexander Philipp, nascido em Neuwied, Renânia. Em 1815, ele contava 33 anos de idade. Sua equipe era consideravelmente grande, integrada por caçadores, taxidermistas e carregadores, além dos dois naturalistas mencionados.

Figura 1- Retrato do Príncipe Maximiliano quando jovem

Maximiliano beneficiou-se da Abertura dos Portos, em 1808, para realizar sua expedição científica, relatada por ele, em Viagem ao Brasil, excelente diário de registro. Nele, o príncipe comentou sobre ecossistemas, plantas, animais, povos nativos, núcleos urbanos e costumes dos colonos. Cabe lembrar que o Brasil ainda era colônia de Portugal, sediando, no Rio de Janeiro, a capital do império colonial português, desde a transmigração da família real para o Brasil. A independência política do grande país só viria em 1822, com D. Pedro, filho do príncipe regente D. João. A família real portuguesa transferiu-se para o Brasil fugindo da invasão de Portugal por Napoleão Bonaparte e contando com o apoio da Inglaterra.

Beneficiando-se da abertura das colônias portuguesas para o mundo, Maximiliano realizou seu grande sonho de naturalista. Nobre e rico, ele cultivava grande amor pela ciência. Era um verdadeiro naturalista ao estilo do século XIX, isto é, estudioso da natureza, como Von Martius, Spix, Saint-Hilaire e Darwin, para só mencionar alguns nomes dessa época áurea do conhecimento científico. Ser naturalista então não era ser especialista numa das ciências da natureza. Aliás, as especializações, felizmente, não tinham sido criadas. Um naturalista conhecia o que hoje chamamos de astronomia, geologia, ecologia, botânica e zoologia. Particularmente, Maximiliano tinha um especial pendor por aves, mas observava os demais grupos de animais, as plantas e as rochas.

Em pleno romantismo, notaremos que esse movimento, manifestado principalmente nas artes com a Revolução Francesa, influenciou a ciência. Maximiliano era um romântico. Ele escrevia muito bem, dono de um estilo belo e preciso. Nada do ranço academicista que invadiu as ciências de um modo geral. Seu diário foi traduzido com apuro por Edgar Süssekind de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo. Os comentário científicos couberam ao competente Olivério Pinto. A fidelidade ao texto e a pontuação merecem elogios aos tradutores. As notas de Olivério Pinto são primorosas.

Como todo naturalista que se prezasse no século XIX, Maximiliano sabia desenhar, já que ainda não existia a fotografia. Mas não desenhava muito bem. Assim, seus esboços foram redesenhados por algum desenhista e pintor de formação. Tomando o mapa de Arrowsmith para se orientar, ele foi fazendo reparos nele com a finalidade de aprimorar o conhecimento geográfico que se tinha na época.

Figura 2- Mapa de Arrowsmith, usado por Maximiliano em sua expedição entre 1815 e 1817

A expedição de Maximiliano passou pela centro-leste do Espírito Santo no final de 1815. Em seu diário, ele fez anotações sobre Monte Agá, Piúma, Iriri, Benevente, Ubu, Meaípe, Guarapari, Perocão, Jucu, Vila Velha e Vitória, além das observações que empreendeu sobre os espaços entre esses lugares. Quando confrontamos as informações de Maximiliano sobre a região e a observamos hoje, parece que ele escreve sobre um mundo perdido. Creio que, se ele ressuscitasse e voltasse a nos visitar, não reconheceria mais os lugares por onde passou.
Além do denso relato contido em Viagem ao Brasil, publicado na Alemanha, em dois volumes, em 1820-21, incorporando informações de muitas leituras, o príncipe escreveu também Beiträge zur Naturgeschichte von Brasilien, em quatro volumes, não traduzido para o português, descrevendo minuciosamente os animais que coletou na expedição. Escreveu também Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens, com magníficas gravuras dos animais que estudou no Brasil.


Figura 3- Folha de rosto de Beiträge zur Naturgeschichte von Brasilien
Figura 4- Folha de rosto de Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

Alemão e romântico, Maximiliano tem pensamentos e atitudes que, para nós, seriam preconceituosas. Mas é preciso inseri-lo em seu tempo. Ele condena a escravidão, mas compra um negro. Ele condena o tratamento que os índios recebiam dos portugueses e brasileiros, mas compra o famoso Guak, que também leva para a Europa. Embora reconhecendo as injustiças praticadas contra os índios, ele está sempre com o dedo no gatilho para atirar neles, caso atacado. Instinto de sobrevivência.

Luís da Câmara Cascudo dedicou um livro ao naturalista, intitulado O Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied no Brasil: 1815 1817. Muitos trabalhos acadêmicos têm sido escritos sobre ele. São tantos que merecem um levantamento. Em suas andanças, Maximiliano se interessa mais pela natureza do que pelas sociedades humanas. Mas olha para essas com a agudeza de um etnógrafo.

Figura 5- Retrato do índio Guak
Figura 6- Folha de rosto da primeira edição (1820) de Reise nach Brasilien (Viagem ao Brasil)

Sua vida foi longa e bem vivida. A longevidade não era comum no século XIX, mas o príncipe morreu em 1867, com 84 anos, em seu castelo, cercado da coleção que formou em suas viagens científicas. Homenageemos essa tão prolífica expedição com três artigos cobrindo a expedição do nobre naturalista desde a vila da Itapemirim a Vitória tomando por base Viagem ao Brasil (Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1989), e usando ao máximo as palavras do príncipe para que o leitor possa usufruir de seu estilo cristalino e se deleitar com as belezas que destruímos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário