quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O BICENTENÁRIO DA EXPEDIÇÃO DE MAXIMILIANO DE WIED-NEUWIED: DE ITAPEMIRIM A VITÓRIA - II

Arthur Soffiati

Ao deixar a vila de Itapemirim, na margem direita do rio de mesmo nome, Maximiliano nota a presença de pedras, confirmando a existência de um litoral não pedregoso entre os Rios Macaé e Itapemirim e reforçando a percepção de uma costa distinta da que lhe fica abaixo e acima. É o que denomino de Ecorregião de São Tomé. 

O primeiro ponto a nos chamar a atenção nesse trecho da viagem é a Fazenda de Agá, onde o naturalista registrou o plantio de mandioca, algodão e café nas adjacências de "Matas extensas, repletas de toda espécie de animais ferozes." Dentre eles, menciona a onça. Em seu diário, ele registra: "Perto da fazenda, alta montanha arredondada e solitária, chamada Morro de Agá, levanta-se dentre as florestas circunjacentes." Aí também ele se depara com o sapo ferreiro (Hyla faber).

Figura 1- Sapo ferreiro. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

Continuando a viagem, ele anota em seu diário: "Passamos, perto de Agá, pela povoação de Piúma, ou Ipiúma, onde um riacho do mesmo nome, navegável apenas por canoas, deságua no mar. Existe, nesse lugar, uma ponte de madeira de trezentos passos de comprimento, assentada no ponto de maior largura do riacho, verdadeira raridade nessas paragens. As margens são cobertas de vegetação densa, e a água escura, cor de café, como a maioria dos córregos de mata e dos pequenos rios da região." A vegetação densa certamente inclui o manguezal, que ainda hoje é expressivo na foz do Rio Piúma ou Iconha.

A caminho de Guarapari, a expedição cruza o "... escuro riacho Iriri, atravessado por uma pitoresca ponte feita de troncos." Hoje, ele se transformou na Lagoa da Conceição, em torno da qual ergueu-se o balneário de Iriri. No caminho, ele vê tucanos, maitacas e uma aranha caranguejeira, espécie que conheceu no início da viagem.

Daí ao Rio Benevente, o Reritiba tupi, o naturalista escreve: "Cavalgamos por uma região montanhosa, com matas e campos alternados, e chegamos, à tarde, a uma elevação, à beira do rio Benevente, donde súbito descortinamos formoso panorama. "(...) Vila Nova de Benevente; à direita, o espelho azul do oceano, e, à esquerda, o rio Benevente, que se espraia como um lago; em derredor, soberbas e sombrias matas e, atrás destas, montanhas rochosas fechando o horizonte (...)A igreja deles e o convento contíguo ainda existem; este, que nos serviu de pouso, é utilizado atualmente como casa da Câmara." O desenho da foz do rio, deixado por Maximiliano, mostra já grande desmatamento, restando apena o manguezal. Aliás, como ainda hoje. A Vila Nova de Benevente chama-se hoje Anchieta, e o convento continua lá, abrigando atualmente uma casa de cultura.
Figura 2- Rio Benevente. Desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied. Desmatamento em ambas as margens, restando apenas o manguezal na margem direita.

Continuando a fazer comentários sobre a vila, ele acrescenta: "Os jesuítas reuniram aí, a princípio, seis mil índios, fundando a maior aldeia dessa costa. A maioria, entretanto, abandonou-a por causa do duro trabalho exigido pela coroa, e devido à maneira tirânica por que eram tratados; espalharam-se por outras paragens, de modo que todo distrito de Vila Nova, incluindo colonos portugueses, não possui mais de oitocentos habitantes, dos quais cerca de seiscentos são índios (...) Vila Nova, propriamente, é um lugar pequeno, com algumas boas casas, mas anima-se aos domingos, porque os moradores dos arredores vão aí assistir à missa." Nesse ponto caçou macacos, um exemplar de saí-açu e uma surucucu.

Figura 3- Sauí-açu. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

Adiante, ele se refere ao Rio Guaraparim: "Campos alagadiços e lamaçais se sucedem próximo à praia litorânea, alternando com pequenas moitas, ao lado dos quais, às vezes se juntam, para deleitar o viandante, trechos de mata virgem. Ouvíamos continuamente o rugido do oceano, cujo litoral montanhoso era coberto de matas. As ramarias tapavam o caminho escuro; orlavam-no árvores majestosas e seculares, que tinham os troncos cobertos de um mundo de plantas, e os galhos, de fungos e liquens; coqueiros novos, embaixo, se entrelaçavam com trepadeiras, cuja tenra folhagem, de lindos matizes vermelhos e verde-brilhante, despontava; ao passo que, muito acima de nossas cabeças, o penacho das comas de velhas palmeiras ondeavam no espaço, e os estipes se curvavam, estalando, para a frente e para trás."

Figura 4- Surucucu. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

Não existe rio com esse nome. Maximiliano fará um esclarecimento sobre a confusão entre baía e rio. Certamente, no ponto em que se encontra, ele deveria estar vendo a grande Lagoa de Maimbá, que se conecta ao presumível Rio Guarapari. Nesse ponto, encontra exemplares de pica-pau de topete amarelo (Picus flavescens) e pica-pau de cabeça e pescoço vermelhos (Picus robustus)
Logo adiante, ele passa pela "... povoação de Obu, constituída de algumas cabanas de pescadores, a duas léguas de Vila Nova." Trata-se do atual Ubu, onde se pode ver a Lagoa Maimbá. Ele está perto de Guarapari quando passa por "Uma povoação (vila sem igreja) denominada Miaipe, ocupada por sessenta ou oitenta famílias de pescadores." Nesse ponto, desemboca o Riacho Meaípe, hoje muito poluído e com margens muito desmatadas.

"Perto de Miaipe, fica a vila de Guaraparim, aonde se vai ter por um caminho sobre montes rochosos, que entram pelo mar. Próximo da vila, um braço de mar, de água salgada, corre para o interior; é chamado Guaraparim, e muitas vezes se fala dele como de um rio (...) A vila tem cerca de 1.600 habitantes, sendo, portanto, um tanto maior que a Vila Nova de Benevente; o distrito inteiro contém mais ou menos três mil almas. As ruas não são pavimentadas, tendo apenas medíocres calçadas junto das casas, que são pequenas e quase todas de um só andar. O lugar é, de modo geral, pobre; na vizinhança, porém, existem grandes fazendas. Uma delas, com quatrocentos escravos negros, é denominada Fazenda de Campos, e outra, com duzentos negros, Engenho Velho"

As formações pedregosas que mergulham seus pés no mar formam, em seus intervalos, as praias de Dairaquara, Bracutia, Peracanga e Guaibura, que conheci desertas na década de 1960, ao passar um mês em Meaípe, apenas uma colônia de pescadores. Hoje, de Meaípe a Guarapari, já se pode falar numa conurbação que se liga a Vitória.
Em Guarapari, ficou o naturalista sabendo de rebeliões e fuga de escravos, que formavam quilombos nas matas. Numa fazenda onde ocorrera uma rebelião de escravos, um padre assumiu a direção em nome dos donos. "... os cabeças dos escravos mataram-no na cama, armaram-se e formaram, nessas florestas, uma república negra, que não foi fácil submeter."

Nas densas matas, havia o pau de óleo, nada mais que a copaíba. "No dia seguinte atravessamos o rio [uma baía], não longe da vila. Serpeia ele, pitorescamente, entre mangues (Conocarpus) de um verde suave, e é limitado, à distância, por verdejantes colinas; na margem norte há uma vila habitada por pescadores. Cavalgamos através de grandes charcos, cheios de moitas da linda Rhexia de flores violetas, e por belas colinas silvestres cobertas de airi e outros coqueiros, muitos dos quais foram motivo de insaciável curiosidade para nós (...) perto de Perocão, e atravessamos um riacho por uma ponte de madeira. Seguimos a praia até a Ponta da Fruta, onde várias casas, à sombra de pequeno bosque, formam uma aldeia dispersa, cujos habitantes, descendentes de negros portugueses, receberam-nos bem."
A expedição percorreu o caminho hoje ocupado pela Rodovia do Sol (ES-060). Na Baía de Guarapari, desembocam alguns pequenos rios. O aporte de água doce cria uma espécie de estuário com condições para o desenvolvimento de um manguezal. Nele, o autor encontrou Rhizophora mangle, Avicennia germinans e Laguncularia racemosa. Em ponto nenhum do manguezal, avistei algum exemplar de Conocarpus. Cada vez mais, conclui-se que Maximiliano e o botânico Sellow não tinham muita intimidade com o manguezal. O outro lado da baía, onde havia apenas uma colônia de pesca, hoje é intensamente ocupado por uma urbanização desordenada em torno da Praia do Morro. A expedição cruza o Rio Perocão, considerando-o um riacho. Mais adiante, serpenteia o pequeno Rio Una, não registrado pelo príncipe.
Já perto de Vitória, ele anota: "Sucediam-se florestas, campos, cerrados e extensos caniçais brejosos (...) Na relva, na margem arenosa de uma lagoa, descobri a cobra cipó verde (Columber bicarinatus), que deve o nome a sua forma esguia e flexível (...) embora completamente inofensiva, os brasileiros a matam onde quer que a encontrem, porque antipatizam com todas as serpentes (...) Não longe do pequeno rio Jucu, sobre o qual passa comprida ponte arruinada, que é preciso atravessar com precaução, encontramos, na costa, uma aldeia de pescadores; continuamos, em seguida, através de bela floresta secular e, por fim, atingimos a vila do Espírito Santo, à beira do rio do mesmo nome."

Figura 5- Cobra cipó verde. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens


Nenhum comentário:

Postar um comentário