segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O BICENTENÁRIO DA EXPEDIÇÃO DE MAXIMILIANO DE WIED-NEUWIED: DE ITAPEMIRIM A VITÓRIA - III

Arthur Soffiati

Finalmente, a expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied chegou ao coração da Capitania do Espírito Santo. Depois de passar pelo Rio Jucu, ele alcançou Vila Velha, que não lhe causou boa impressão: "Vila Velha do Espírito Santo, pequena e miserável vila aberta, construída quase numa praça." Ele confundiu a Baía de Vitória com um rio, confusão desfeita posteriormente. Logo depois de sua partida para Salvador, a vila de Vitória ganha o estatuto de cidade.
Os membros da expedição galgaram a colina de Nossa Senhora da Penha. Lá do alto, ele descreveu a paisagem no seu estilo panorâmico e romântico: "domina-se a imensa superfície oceânica, e, do lado da terra, veem-se belas cadeias de montanhas, com vários picos e vales intermediários, donde surge pitorescamente o largo rio. A vila é formada de baixos casebres de barro e decai à meia distância. Esta é um lugarejo gracioso, e foi elevada à categoria de cidade depois de minha partida (...) A cidade de Nossa Senhora da Vitória é um lugar limpo e bonito, com bons edifícios construídos no velho estilo português, com balcões e rótulas de madeira, ruas calçadas, uma câmara municipal razoavelmente grande, e o convento dos jesuítas, ocupado pelo governador, que tem, a sua disposição, uma companhia de tropa regular (...) Além de vários conventos, há uma igreja, quatro capelas e um hospital. A cidade é, entretanto, um tanto morta, e os visitantes, sendo raros, são objeto de grande curiosidade. O comércio marítimo não é desprezível (...) As fazendas vizinhas produzem muito açúcar, farinha de mandioca, arroz, bananas e outros artigos, que são exportados ao longo da costa. Vários fartes protegem a entrada do belo rio Espírito Santo: um, logo na foz; o segundo, construído de pedra, um pouco acima, com oito canhões de ferro; e ainda um pouco mais acima, numa colina entre o último e a cidade, um terceiro forte com dezessete a dezoito canhões, alguns dos quais de bronze. A cidade está edificada, um tanto desigualmente, sobre colinas aprazíveis, e o rio, que lhe passa atrás, corre entre altas encostas, em parte rochosas e em muitos lugares nuas e cobertas de liquens. A bela superfície do grande rio é semeada de numerosas ilhas verdejantes, e a vista, aonde quer que lhe siga o curso através da região, encontra sempre um pouso ameno em altaneiras e fragrantes montanhas vestidas pela mataria."
Se, de fato, o braço da baía entre o continente e a ilha fosse um rio, ele superaria o Paraíba do Sul, até esse ponto o maior que a expedição havia cruzado. Mas eram grandes as evidências de que se tratava de um braço de mar para os integrantes da expedição o confundissem com um rio. Ao mesmo tempo, é intrigante que nenhum morador do continente ou da ilha tenha informado tratar-se de mar.
Como em Campos, Maximiliano volta a se sentir um pouco em casa, recebendo notícias da Europa. "Tivemos de novo notícias da Europa, porque existe um serviço de correio, por terra, do Rio de Janeiro até a cidade em questão, não continuando, porém, para o norte." Deve-se presumir que houvesse um serviço de correio autônomo em Salvador, ponto final da expedição.
Não conseguindo hospedagem para tão grande número de pessoas e animais, Maximiliano e seus companheiros foram alojados em Barra do Jucu, por onde já haviam passado. Lá, eles se hospedaram na casa do rico fazendeiro de sobrenome Falcão. Em suas palavras, "Barra do Jucu é uma pequena aldeia de pescadores à beira do rio Jucu, que aí desemboca no mar, depois de um percurso cheio de coleios através das florestas, desde as grandes fazendas de Coroaba e Araçatiba. O peixe é abundante, e perto das margens há muitos lugares de agreste pitoresco. As casas dos pescadores de Barra do Jucu ficam mais ou menos dispersas; no meio delas, próximo da ponte sobre o rio, está a casa do coronel Falcão." Além de partes altas afastadas da costa, havia também muitos banhados, drenados no século XX sobretudo pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento. O dreno de um desses brejos desboca na foz do Jucu e se denomina Canal do Congo.
Em suas caçadas, Maximiliano e membros da expedição conseguem enriquecer a coleção de fauna com um sauim desconhecido (Jacchus leococephalus), porco espinho de rabo preênsil, saíra (Tanagra elegans), saí (Procnias cyanotropus) e veados.

Figura 1- Sagui obtido nos arredores de Vitória. Publicado
em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens
A expedição foi visitar a fazenda de Araçatiba, do coronel Falcão. O deslumbramento com a paisagem mereceu registro do naturalista: "... primeiro passávamos através de grandes várzeas arenosas, repletas de plantas palustres as mais diversas; subíamos depois morros, onde tufos de palmeiras novas e outras belas árvores ofereciam sombra densa. Uma espécie de gramínea parecida com o junco cobre os lugares escampos, em que o pequeno tentilhão cor brilhante de aço é muito comum (...) A imponente selva de Araçatiba era um ermo solene; por toda a parte os papagaios esvoaçavam com alarido, e a vozeria dos macacos saí-açu se ouvia em todo o redor. Trepadeiras, ou cipós, das espécies mais belas e variadas, entrelaçavam-se nos troncos gigantescos, formando impenetrável mataria: as esplêndidas flores das plantas carnudas, os pendentes festões dos fetos, enrolados nas árvores, vicejavam luxuriantemente; em toda parte, coqueirinhos novos adornavam o mato baixo, sobretudo nos pontos úmidos; aqui e ali, a Cecropia peitata, de caule anelado cinzento-prateado, formava moitas distintas. Dessa majestosa penumbra passamos inesperadamente para um trecho escampo, e tivemos grata surpresa quando, de súbito, descortinamos o grande edifício branco da fazenda de Araçatiba, com as suas duas torres pequenas, situada numa linda planura verde, ao pé do altaneiro Morro de Araçatiba, montanha rochosa coberta de mata. Araçatiba foi a maior fazenda que encontrei durante a minha viagem."

Figura 2. Ouriço caçado nas cercanias de Vitória. Publicado
em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens
A principal lavoura das fazendas do coronel Falcão era a cana, para a produção de açúcar. Aí, Maximiliano consegui abater um cobra caninana. 

Figura 3- Caninana caçada nas imediações de Vitória. Publicado
 em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens
Os integrantes da expedição científica liderada por Maximiliano de Wied-Neuwied sofreram mais o assédio de pequenos animais do que dos grandes. Ninguém foi atacado por onças, mas vários deles ou todos foram atacados por mosquitos, bichos-de-pé e cobras. Nas imediações de Vitória, Maximiliano deu notícia da mosca que chamamos atualmente de varejeira: "Os cordeirinhos, que os meninos apanharam, mostravam frequentemente, no umbigo ainda mal cicatrizado, uma porção de larvas, para matar as quais esfregavam mercúrio no lugar. Essas larvas são um mal bastante comum nos países quentes; onde quer que haja uma ferida, as moscas estão prontas para desovar. Existe no Brasil outro inseto que deposita os ovos no tecido muscular ou debaixo da pele, até do próprio homem; depois da picada deste animal sobrevém uma pequena dor local, o lugar começa a inchar, até o momento em que os naturais, perfeitamente conhecedores desta nociva praga, extraem uma pequena larva branca e alongada, cicatrizando-se depois a ferida." O outro inseto a que o príncipe se refere deve ser a pulga hoje conhecida cientificamente com o nome de Tunga penetrans ou popularmente bicho-do-pé. A diferença entre a pulga e a mosca varejeira é que a fêmea da pulga, não conseguindo pular tão alto quanto à pulga mais conhecida, sua parenta, ataca as partes baixas dos membros inferiores, até a altura do joelho. Já a mosca não penetra na pele do hospedeiro. Apenas deposita seus ovos em feridas de animais, ovos esses que gerarão a larva conhecida por berne. 

Figura 4- Foto de berne
Ao partir de Vitória, Maximiliano fez um desenho da Pedra de Jucutuquara, certamente redesenhado na Europa para ilustrar "Viagem ao Brasil".

Figura 5- Pedra de Jucutuquara. Desenho de autor desconhecido com base em desenho
original de Maximiliano. Em "Viagem ao Brasil"
Sua intenção era passar bastante tempo na região de Vitória, mas os planos foram mudados, e a expedição continuou seu itinerário para o norte, passando pelo Rio Maruim ou da Passagem, onde ele registrou a presença de manguezais (sempre Rhizophora, Conocarpus e Avicennia), e pousando em Praia Mole. Aqui deixamos de acompanhá-lo.
O que a expedição de Maximiliano nos mostra é os ecossistemas do Brasil, em 1815, eram mais pujantes que atualmente. O desmatamento a drenagem e a urbanização destruíram paulatinamente o domínio da mata atlântica. A postura reinante no mundo ocidental e ocidentalizado da época era a de uma natureza inesgotável. A destruição ainda não havia alcançado o ponto de engendrar uma crise ambiental e de requerer a criação de unidades de proteção ambiental. O comportamento do próprio Maximiliano e de seus colegas de expedição era o de retirar o que desejasse da natureza, embora ele se encantasse com rios, lagoas e florestas. Seu relato escrito há dois séculos mostra que existe uma tendência, hoje globalizada, a marchar do bom para o ruim, do belo para o feio, do melhor para o pior nas relações da sociedades humanas com o ambiente. A crise ambiental da atualidade já estava em marcha naqueles longínquos anos. Poucas figuras, como José Bonifácio de Andrade e Silva e Auguste de Saint-Hilaire, alertaram sobre o perigo que representava a destruição da natureza.   

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