terça-feira, 3 de novembro de 2015

PRIMEIRA ECOFISIONOMIA DA ECORREGIÃO DE SÃO TOMÉ NO HOLOCENO

Arthur Soffiati

Nesta série de quatro artigos, pretende-se examinar comparativamente as ecofisionomias do Holoceno na Ecorregião de São Tomé. Ecofisionomia é o conjunto de ecossistemas de uma ecorregião. Holoceno é uma época geológica que se iniciou há cerca de 12 mil anos e se estende até a atualidade. Uma ecorregião consiste num conjunto de ecossistemas que se relacionam entre si, formando uma unidade diversa. A Ecorregião de São Tomé vem a ser uma unidade com características singulares entre os biomas atlântico e costeiro ou apenas um ambiente singular no âmbito do domínio Mata Atlântica.
Entende-se que ecofisionomia é um conceito mais preciso que espaço, paisagem e território, pois define de forma mais fechada os ecossistemas que a formam, considerando a geologia, a geomorfologia, a hidrografia, e a organização dos seres vivos. Assim, a Ecorregião de São Tomé se singulariza por ser um grande aterro formado pela própria natureza entre os Rios Macaé e Itapemirim com a deposição de sedimentos carreados da zona serrana pelos rios e do mar pelos movimentos marinhos, sobretudo avanços (progressões) e recuos (regressões) e correntes marinhos. 
Figura 1- Mapa esquemático da Ecorregião de São Tomé
O senso comum acredita que a atual Ecorregião de São Tomé, cujo nome homenageia o Cabo de São Tomé e a Capitania de São Tomé, primeira tentativa de colonização europeia da região, sempre apresentou a mesma ecofisionomia na história geológica e humana. Bem ao contrário, ela apresentou diversas ecofisionomias ao longo do tempo. Este artigo analisa apenas as ecofisionomias da Ecorregião de São Tomé no Holoceno, ou seja, nos últimos doze mil anos, tempo muito exíguo em termos geológicos e muito longo em termos humanos. Esta breve análise compara as duas interpretações globais da formação da ecorregião e, particularmente, da planície fluviomarinha do Rio Paraíba do Sul, o maior da ecorregião. A primeira interpretação, que já se tornou clássica, foi formulada por Alberto Ribeiro Lamego entre 1945 e 1955 (LAMEGO, Alberto Ribeiro. O homem e o brejo, 1ª ed. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia, 1945; Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº. 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955).
A segunda foi apresentada, na sua forma melhor acabada, em 1997, por Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José M. L.; e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997). Podemos dizer que ambas as interpretações reconhecem quatro ecofisionomias distintas para a ecorregião em apreço.   
No caso de Lamego, sua tese parte do antigo período Terciário, cujo fim foi fixado em torno de um milhão e oitenta mil anos antes do presente (AP). Segundo o autor, neste recuado tempo, o continente confinava com o mar em ponto mais distante que atualmente. O mar lambia os pés do cristalino, ou seja, da zona serrana. Não havia os tabuleiros da Formação Barreiras nem a planície fluviomarinha. Nem mesmo a Lagoa de Cima, com formação serrana, ainda não havia se constituído, como mostra o mapa abaixo:
Figura 2- Primeiro momento da formação geológica da planície
fluviomarinha do Rio Paraíba do Sul segundo Lamego (1945-55)
A linha contínua limita a parte continental, mostrando os acidentes geográficos da época, a reentrância correspondente à atual Lagoa de Cima, o ponto em que seria erguida a cidade de Campos e a Ilha do Alto, na verdade, a colina da Codin. A linha pontilhada, por sua vez, assinala a costa atual, interrompida pela reentrância correspondente ao atual desaguadouro do Rio Paraíba do Sul. Esta, portanto, seria a primeira ecofisionomia da Baixada Goitacá. Embora ele não se refira ao sul dela, até o Rio Macaé, e ao norte dela, até o Rio Itapemirim, é de se supor que o continente era mais recuado e o mar mais avançado com relação aos limites atuais.
Podia-se prever que já existisse a Mata Atlântica com duas fisionomias: floresta ombrófila densa atlântica na Serra do Mar e floresta estacional semidecidual atlântica na margem esquerda do Paraíba do Sul, que, embora não figurando no mapa, já devia desembocar no mar. Nas partes mais altas da Serra do Mar, já deviam estar consolidados os refúgios vegetacionais ou campos de altitude. Nos desaguadouros, com a formação de estuários, medravam manguezais (Cf. VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa e LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991). A fauna era certamente formada pelos animais do tempo mais frio do Terciário, fauna esta que, em grande parte, extinguiu-se com o aquecimento planetário no Holoceno. As Américas ainda não eram povoadas por humanos. 
A nova interpretação, formulada por Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, é diametralmente oposta à de Lamego (MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José M. L.; e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997). Os autores demonstram que, no início do Holoceno, o continente entre os Rios Macaé e Itapemirim era maior e a linha de costa mais avançada do setor sul. No setor leste, no espaço a ser ocupado pela maior restinga do atual Estado do Rio de Janeiro, a linha de costa era mais recuada. A Restinga de Carapebus, entre o Rio Macaé e o atual Canal da Flecha, data de 123.000 anos AP. A Restinga de Marobá na margem esquerda do Rio Itabapoana também já estava formada. Entre os Rios Macaé e Itapemirim estendia-se uma grande unidade da Formação Barreiras cortada pelos Rios Paraíba do Sul (com foz provavelmente em ponto distinto do atual), Guaxindiba, Itabapoana e Itapemirim. A linha de costa avançava mais no mar, o que parece bastante lógico, visto que o nível do mar no Pleistoceno (época anterior ao Holoceno) era muito mais baixo que o atual.
A Lagoa de Cima já existia alimentada, como atualmente, pelos Rios Urubu e Imbé. Todos os rios que desciam da serra já estavam presentes então, como os Rios do Colégio, Preto e Macabu. Este último talvez fosse afluente do Paraíba do Sul. Várias outras lagoas deviam existir na porção de tabuleiro erodida a partir de 12.000 anos AP.
Figura 3- Baixada fluviomarinha dos Goytacazes há 12 mil anos AP concebida
pelo autor a partir de mapa e informações de Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997) 
Na zona serrana, já estavam constituídas as formações vegetais nativas: os refúgios vegetacionais ou campos de altitude do Pico do Frade ou do Parque do Desengano, a floresta ombrófila densa atlântica na zona serrana à margem direita do Paraíba do Sul, a floresta estacional semidecidual atlântica na zona serrana à margem esquerda do Paraíba do Sul e no tabuleiro, a formação pioneira de influência marinha (vegetação de restinga) nas restingas de Marobá e Carapebus e manguezais nos estuários dos Rios Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé (VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa e LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991).
Povos nativos já deviam ocupar a zona serrana, o tabuleiro e as duas restingas.

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