sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

SEGUNDA ECOFISIONOMIA DA ECORREGIÃO DE SÃO TOMÉ NO HOLOCENO

Arthur Soffiati

Na interpretação de Alberto Ribeiro Lamego, o segundo momento da formação da Planície do Paraíba do Sul, dentro da Ecorregião de São Tomé, durante o Holoceno, corresponde ao avanço de uma língua continental nas águas rasas marinhas. Este teria sido o início da formação do delta do Paraíba do Sul, que, na sua primeira conformação, criou dois golfos: o da Lagoa Feia e o de Campos. Esta língua foi formada em mar aberto pelo rio, ramificando-se em vários paleocanais. Lamego classificou este primeiro delta como do tipo pé de ganso ou Mississipi, visto que este rio desemboca no Golfo de México por uma rede alongada de canais, semelhante aos dedos dos pés de uma ave.

Como as correntes marinhas já eram fortes, o Rio Paraíba do Sul criou uma laguna na foz junto ao mar como proteção. No mapa abaixo, a costa atual está assinalada por um linha tracejada, interrompida no ponto em que a foz do rio irá relativamente se fixar. Pela datação do autor, este primeiro delta teria se formado no início do Holoceno, hoje datado em cerca de 12 mil anos antes do presente  (LAMEGO, Alberto Ribeiro. O homem e o brejo, 1ª ed. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia, 1945; Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº. 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955).

Embora a interpretação de Lamego tenha sido reformulada, se continuasse válida, a zona serrana não teria sofrido alterações, e as formações vegetais nativas nessa zona seriam potencialmente as mesmas de hoje: os refúgios vegetacionais ou campos de altitude no Pico do Frade e na Pedra do Desengano, a floresta ombrófila densa atlântica na zona serrana, à margem direita do Paraíba do Sul, e a floresta estacional semidecidual atlântica na zona serrana, à margem esquerda do Paraíba do Sul. Lamego entendia que o tabuleiro teria se formado anteriormente ao primeiro delta, de mesma forma que ele. Assim, ele também devia ser revestido por matas estacionais semideciduais. Ao longo da língua continental formada pelo Paraíba do Sul dentro do mar, a umidade era muito grande, inibindo o desenvolvimento de florestas. Só a vegetação de brejo podia prosperar ao longo do primeiro delta. As áreas de restinga ainda não estavam formadas. Talvez medrassem manguezais neste primeiro delta, pois o encontro da água doce com a água salgada já formava um grande estuário na laguna original. Se povos nativos já habitavam a região, eles estariam nas partes continentais consolidadas, assim como a fauna.

Acontece que o geólogo Gilberto Dias contestou a interpretação de Lamego, observando que um delta do tipo pé de ganso não poderia se formar numa costa de alta energia oceânica (DIAS, Gilberto T. M. O complexo deltaico do rio Paraíba do Sul. IV Simpósio do Quaternário no Brasil (CTCQ/SBG), publ. esp. nº 2. Rio de Janeiro, 1981).


Figura 1- Primeira fase da formação do delta do Paraíba do Sul segundo Lamego.
A segunda interpretação, proposta por Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, parte da premissa de que, em lugar de mar, havia uma porção continental com linha de costa mais avançada no oceano que atualmente. Com a elevação do nível do mar, no início do Holoceno, ocorreu o fenômeno de transgressão marinha, vale dizer, o mar avançou sobre um grande tabuleiro entre os Rios Macaé e Itapemirim, alcançando as bordas da zona serrana. A foz dos rios no mar foi empurrada para o interior. A invasão marinha afogou a Lagoa de Cima, transformando o Morro do Itaoca numa ilha. (MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José M. L.; e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997).

O ponto mais baixo no tabuleiro era a vale do Paraíba do Sul, que permitiu à transgressão marinha alcançar a zona serrana (cristalino) e erodir todo o entorno, separando o grande tabuleiro em duas seções: norte e sul. Nos trechos mais altos e tabuleiro, o mar avançou o quanto pôde, deixando atrás de si áreas erodidas, como as paleopraias e a Ilha das Andorinhas, entre os Rios Guaxindiba e Itapemirim. Onde o tabuleiro era mais elevado que a transgressão marinha, formaram-se falésias, extensas paredes costeiras. A Restinga de Carapebus, com cerca de 123.000 anos, perdeu para o mar a parte mais baixa, mas conservou planos acima da transgressão marinha. Parece que o mesmo aconteceu com a Restinga de Marobá. A Restinga de Paraíba do Sul ainda não existia, como se pode verificar no mapa a seguir.

Assim, por esta interpretação, vigente nos dias de hoje, a segunda ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé caracterizou-se por grande invasão do continente pelo mar na sua porção central. O máximo transgressivo foi alcançado em 5.100 anos antes do presente, no Holoceno Médio.    


Figura 2. Segunda ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé
segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor.
Com a invasão do mar nos vales dos rios, os manguezais deslocaram-se para o interior, no ponto em que água doce e água salgada confinavam. A vegetação de restinga foi eliminada nos pontos engolidos pelo avanço do mar e poupada nas partes que se mantiveram emersas. Houve uma grande perda da floresta estacional semidecidual nas partes do tabuleiro invadidas pelo mar. Ela sobreviveu nas partes emersas. A floresta ombrófila densa atlântica não foi atingida, tampouco os campos de altitude. O estudo da vegetação que morreu por submersão é feito atualmente pela palinologia (análise de pólen), sobretudo por Cynthia Fernandes Pinto da Luz (Os registros palinológicos como sensores das dinâmicas da vegetação do Holoceno da região norte do Estado do Rio de Janeiro (Brasil). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, dezembro de 2003 (tese de doutorado); desta autora com Ortrud Monika Barth (Palinomorfos indicadores de tipos de vegetação em sedimentos holocênicos da Lagoa de Cima, norte do Estado do Rio de Janeiro, Brasil – Dicotyledoneae. Leandra 15. Rio de Janeiro, 2000); de ambas com Louis Martin (Evolução das florestas tropical estacional semidecidual e ombrófila densa durante o Holoceno médio na região norte do Rio de Janeiro, baseada em palinologia. Geociências, IV (6), dezembro de 1999); e de ambas novamente com Cleverson Guizan Silva e Ina de Souza Nogueira (Dinâmica espacial na deposição de pólen, esporos e algas nos sedimentos da superfície de fundo da Lagoa de Cima, município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil Anais do II Congresso sobre Palinologia e Gestão das Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa, IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário, II Congresso do Quaternário dos Países de Línguas Ibéricas, nº 52, 2003).

A fauna já devia ser formada por animais típicos do Holoceno americano, mais adaptados a clima quente. Se a parte continental no fim do Holoceno já era habitada por povos nativos, os que ocupavam as partes baixas tiveram que se deslocar para as partes altas.

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