terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

TERCEIRA ECOFISIONOMIA DA ECORREGIÃO DE SÃO TOMÉ NO HOLOCENO

Arthur Soffiati

No que reconheço como a terceira ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé nos últimos 10 mil anos, acaba havendo uma convergência entre as interpretações de Alberto Ribeiro Lamego (1945-54) e a dos geólogos Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997). A diferença entre ambas está no ponto inicial. Alberto Lamego concebe o Rio Paraíba do Sul avançando sobre um golfo raso e transportando sedimentos das partes altas para as partes baixas. Assim, o rio construiu um longo espigão dentro do mar, formando seu primeiro delta. Lamego classificou esse primeiro delta como do tipo Mississipi ou pé de ganso, por ter braços longos como os do delta do Mississipi ou dedos longos como os do pé de um ganso. Num segundo momento, esse longo espigão se ramificou em dois braços num ponto distante da costa atual e formou um delta do tipo Ródano, por se parecer com o delta desse rio. Enquanto isso, a água do Paraíba do Sul carreava sedimentos que formavam a planície fluviomarinha. Finalmente, o Paraíba do Sul consolidou seu ponto de lançamento de água no mar por um delta típico do rio, recebendo, por isso, a classificação de delta do tipo Paraíba do Sul, com os braços de Atafona e Gargaú. Gilberto Dias (1981) contestou o delta pé de ganso por entender que as forte correntes marinhas da região jamais permitiriam um delta com longos braços em mar aberto.

Já pelas pesquisas dos quatro geólogos, a terceira ecofisionomia constrói-se por processos de avanços (transgressão/retrogradação) e recuos (regressão e progradação) do mar e do continente. A partir de 10 mil anos antes do presente, o mar começou a avançar sobre o continente, alcançando sua culminância em 5.100 anos antes do presente. A partir de então, dois processos concomitantes constroem e estabilizam uma linha de costa muito próxima da atual. Lembremos, contudo, que as dinâmicas marinha e continental continuam atuando. Daí, processos erosivos em Marataízes, Barra do Itabapoana, Manguinhos, Guaxindiba, Atafona, Açu, Cabo de São Tomé e Barra do Furado. Deve-se levar em conta que as intervenções humanas concorrem para tais processos, como a redução de vazão de rios por ação antrópica, a construção de píeres na costa e a abertura de canais no continente.

Num ponto, as duas interpretações chegam à mesma conclusão: o resultado de ambos os processos é a formação de uma grande planície fluviomarinha deltaica pelo Rio Paraíba do Sul com incontáveis cursos d'água e lagoas, como mostram os mapas a seguir.      


Figura 1- Planície dos Goytacazes no século XVII segundo Alberto Ribeiro Lamego (1945)



Figura 2- Baixada dos Goytacazes em torno de 2.500 antes do presente, segundo Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997)


Martin, Suguio, Dominguez e Flexor, comparando as linhas de costa da ecofisionomia de 10 anos antes do presente com a de 2.500 anos antes do presente, concluem que houve retrogradação (recuo continental) nas áreas de tabuleiro e na restinga sul, com progradação (avanço continental) na restinga norte.

No interior da planície, a corrente do Paraíba do Sul e suas ramificações assumem a direção norte-sul e oeste-leste. Esta orientação talvez se deva à força do jato hídrico em direção ao sul e a força das correntes marinha de leste para oeste. Dois eixos hídricos se distinguem na planície. O primeiro é o do Paraíba do Sul, que se desloca de oeste para leste. O segundo é desenhado pelos Rios Imbé e Urubu-Lagoa de Cima-Rio Ururaí-Lagoa Feia-Rio Iguaçu. Os dois eixos se aproximam na raiz. O Rio Iguaçu, hoje não mais existente, corria paralelo ao Rio Paraíba do Sul. Os dois se ligavam pelo menos por seis cursos hídricos, com as água correndo lentamente do Paraíba do Sul para o Iguaçu, em razão da ligeira declividade do terreno na margem direita do Paraíba do Sul em direção ao Iguaçu. Embora sem os muitos detalhes assinalados pelo cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis, em 1785, José Vieira Leão, antecessor seu, registrou a estrutura hídrica da planície em 1767, como se pode depreender do mapa abaixo.

Figura 3- Carta da Planície dos Goytacazes segundo Vieira Leão (1767). Legenda: A- Eixo Paraíba do Sul; B- eixo Imbé-Lagoa de Cima-Ururaí (notar que o autor escreve Imbé)-Lagoa Feia-Iguaçu; 1- Córrego do Cula; 2- São Bento; 3- Rio Doce ou Água Preta

Figura 3- Carta da Planície dos Goytacazes segundo Vieira Leão (1767). Legenda: A- Eixo Paraíba do Sul; B- eixo Imbé-Lagoa de Cima-Ururaí (notar que o autor escreve Imbé)-Lagoa Feia-Iguaçu; 1- Córrego do Cula; 2- São Bento; 3- Rio Doce ou Água Preta


Os dois rios desembocavam no mar, em conformidade com o mapa abaixo.

Figura 4- Baixada dos Goytacazes segundo Alberto Ribeiro Lamego (1954). Legenda: A- Rio Paraíba do Sul; B- Sistema Imbé-Ururaí-Iguaçu; 1- Rio Preto; 2- Rio Cacumanga; 3- Córrego Grande ou do Cula; 4- Rio Cambaíba; 5- Rio São Bento; 6- Rio Doce ou Água Preta
Ao se formar, a planície capturou a parte serrana do Rio Paraíba do Sul, a Lagoa de Cima, o Rio Macabu e o Rio Muriaé. Vários pequenos cursos provenientes do tabuleiro foram tamponados pela restinga norte, transformando-se em lagoas. Em outras palavras, a planície do Rio Paraíba do Sul formou-se entre a zona serrana e os tabuleiros sul e centro, interceptando os cursos hídricos e bloqueando córregos.

No interior da planície, a Lagoa de Cima transbordou e passou a correr pelo Rio Ururaí. O Rio Preto, oriundo da Serra do Mar, desembocava no Paraíba do Sul quando das cheias. Nas estiagens, seu leito corria só para o Rio Ururaí. Este se alargava mais adiante na grande Lagoa Feia, que recebia o Rio Macabu. Por vário braços, a Lagoa Feia formava o Rio Iguaçu, que tinha uma foz alternativa para o mar, em tempos de cheia, na Lagoa do Lagamar. Os antigos ainda conhecem este escoadouro com o nome de Barra Velha. Depois de receber águas do Paraíba do Sul, com mais intensidade nas enchentes, pelos vertedouros do Cula, do Cambaíba, do São Bento e do Preto, o Rio Iguaçu formava o Banhado da Boa vista e se lançava no mar. Esses vertedouros formavam uma infinidade de lagoas que, no conjunto, constituíam um pantanal.

Considerando que a Ecorregião de São Tomé pode ser delimitada por um quadrilátero em que as duas linhas verticais tangenciam os Rios Itapemirim e Macaé, ao ser vedada a figura geométrica com as duas linhas horizontais, ela incluíra a zona serrana alta, a zona serrana baixa, a zona de colinas e maciços costeiros, três unidades de tabuleiro, quatro planícies aluviais e três restingas. As atuais regiões norte e noroeste do Estado do Rio de Janeiro, bem como a região sul do Espírito Santo estão inclusas no quadrilátero.



Figura 5- Ecorregião de São Tomé: concepção do autor sobre base cartográfica do Projeto RadamBrasil (1983). Legenda: 1- Zona Serrana Alta; 2- Zona Serrana Baixa; 3- Zona de Colinas e Maciços Costeiros; 4- Tabuleiros; 5- Planícies Aluviais; 6- Restingas.

Cinco rios de maiores proporções desembocam no mar no âmbito da ecorregião: Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul e Macaé. Entre o primeiro e o terceiro, vários pequenos cursos d'água também defluiam no mar. A maioria deles perdeu a competência para continuar com a barra aberta, sobretudo por ações antrópicas.

Dentro do quadrilátero que delimita a ecorregião, encontram-se as seguintes formações vegetais nativas, do ponto mais alto até a linha de costa: 1- campos de altitude ou refúgios vegetacionais na Pedra do Desengano e no Pico do Frade; 2- Floresta ombrófila densa atlântica, na Serra do Mar e na zona de colinas e maciços costeiros; 3- Floresta Estacional Semidecidual Atlântica, na zona cristalina baixa, à margem esquerda do Rio Paraíba do Sul e nos tabuleiros; 4- campos nativos, formações pioneiras fluviais e mata higrófila de várzea nas planícies alagáveis e alagadas; 5- vegetação de restinga ou formações pioneiras de influência marinha e 6- manguezais, nos estuários abertos, semiabertos e fechados.

A fauna nativa também era bastante diversificada, incluindo animais de grande porte, como antas, onças, tamanduás bandeira e veados.

À medida que o continente foi avançando com o recuo do mar, povos nativos foram se instalando nas margens de rios e lagoas para a obtenção fácil de alimento. Os grupos indígenas do norte e noroeste fluminense e do sul do Espírito Santo faziam parte do tronco linguístico macro-jê, que se estendia pela Zona da Mata de Minas Gerais. Como praticavam uma economia de subsistência, os ecossistemas e os recursos naturais não sofriam danos profundos.

Quando Pero de Gois fundou a Vila da Rainha (1539), na margem direita do Rio Itabapoana, no âmbito da Capitania de São Tomé, e quando os Sete Capitães iniciaram uma colonização contínua em moldes europeus da ecorregião, a partir de 1632, a economia de subsistência dos povos nativos chocou-se com a economia de mercado da Europa. A ecorregião começou a ser incorporada ao processo de globalização e uma nova ecofisionomia começou a ser construída, agora não mais por forças da natureza, mas por ação humana e a poder de profundas transformações destruidoras de ecossistemas. Esta quarta ecofisionomia será examinada no próximo artigo, o último de uma série de quatro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário